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João Carlos Fachini

Chamo-me João Carlos Fachini. Nasci no dia 8 de junho de 1988 na cidade de Presidente Prudente, onde fui criado e resido. Sou casado e pai de dois filhos. Bacharel em Ciência da Computação e atuo como Engenheiro de Software. Também possuo formação em Teologia, curso ministrado a mim pelo meu saudoso sogro, missionário batista Calvin Gardner. 

Gostaria de compartilhar nesse relato um pouco sobre o meu caminhar com Deus. Para isso contarei um pouco sobre minha iniciação na religião cristã na infância, meu descaminho na adolescência e juventude, minha volta à fé cristã, e finalmente, minha volta para casa.

Logo quando nasci para ser mais exato no dia 27 de agosto de 1988, fui batizado na Igreja Católica. Desde então, por meus pais serem católicos não praticantes (IBGE), cresci sem frequentar a Igreja.

Aos quatro anos fui matriculado no Colégio Cristo Rei, tradicional colégio católico de linha beneditina de minha cidade. Recebia aulas de professores leigos, mas sempre convivia com as religiosas que ali viviam, especialmente nas aulas de religião, que eram ministradas por elas.

Logo cedo mostrei interesse pelo assunto da religião e sempre era um dos que tinham melhor desempenho na disciplina. Nas aulas aprendíamos lições de ética e moral cristã, canções e orações. Ensinos muito proveitosos, que permaneceram vivos em minha memória por toda minha caminhada.

Com o início da adolescência foi introduzido na disciplina de religião um estudo mais abrangente das outras religiões. Recebi instrução sobre as maiores religiões do mundo, ainda que de forma introdutória, mas honesta e sem partidarismo. Nessa época recebia aulas de religião de professoras leigas.

No final da minha infância, minha mãe, até então uma católica de IBGE, se envolveu com o pentecostalismo evangélico (ou neopentecostalismo para os puristas). Mais especificamente, passou a frequentar a Igreja Internacional da Graça de Deus, do missionário R.R. Soares. Nessa época, ano de 1998, eu com dez anos, frequentava os cultos com minha mãe, mas estava mais interessado nas brincadeiras com outras crianças do que com o que estava sendo ensinado.

No final do ano 2000 minha avó materna faleceu. Isso abalou profundamente minha mãe, que passou por um quadro de depressão. Nunca havia presenciado a morte de alguém próximo, tendo a morte de minha querida avó me atingido profundamente. Comecei a pensar sobre a finitude da vida humana. Eu me imaginava morrendo e tinha medo do que aconteceria comigo. Além disso, tinha o fator de querer agradar minha mãe, já que ela estava sofrendo tanto por causa da perda da minha avó.

Sendo assim, ainda no final do ano 2000, passei a levar a sério aquela religião, entrei de cabeça! No dia 31 de dezembro daquele mesmo ano, em uma vigília de réveillon, fui batizado novamente, dessa vez na igreja pentecostal. Nessa igreja, assim como em muitas outras igrejas evangélicas, é considerado inválido o batismo que se recebe como bebê, já que segundo eles, o bebê não tem consciência do que faz não podendo exercer fé em Cristo.

Além de ter sido batizado nas águas, experimentei o que os pentecostais chamam de segunda benção: batismo com o Espírito Santo ou falar em línguas estranhas. Esse foi um acontecimento bizarro! Onde via todos falarem coisas sem nexo, que diziam ser a língua dos anjos, e desejava profundamente ter esse dom também. Conversando com o pastor sobre como obter esse dom, ele me disse que bastava imitar os outros que em um dado momento eu passaria a falar verdadeiramente. Na minha cabeça de criança achei aquilo verdadeiro e fiz exatamente conforme o ensinado, passando a falar também em línguas. Nesse momento passei a vivenciar o subjetivismo protestante, em que cada um diz uma coisa e o que importa no final é como você se sente a respeito.

Passei o ano inteiro de 2001 frequentando assiduamente essa igreja. Participava de todos os cultos, e olha que eram muitos! Estava na igreja na segunda-feira da prosperidade, na quarta-feira da família, na sexta-feira da libertação, no grupo de jovens no sábado e finalmente no histérico culto de busca do Espírito Santo no domingo. Também nessa época, li pela primeira vez, o Novo Testamento inteiro e boa parte do Antigo. Li ainda os principais livros que davam sustentação a fé neopentecostal. Assim vivi intensamente essa fé por um ano.

Durante esse ano de vivência da fé neopentecostal, passei a questionar algumas coisas. Sendo a principal delas o fato da determinação, ou confissão positiva, ou ainda, palavra de fé. Ensino que diz que se você determinar algo em nome de Jesus, com fé verdadeira, tudo o que pedir acontecerá, mesmo que seja algo absurdo. Por exemplo, alguém que crê nisso acredita que toda doença é falta de fé. Se um pastor estiver doente, ele está falhando na fé. Os membros eram desencorajados a procurar ajuda médica, embora o fizessem escondido. Certa vez o pastor estava com uma gripe muito forte, que mais parecia uma pneumonia, e se recusou até o último momento ir ao médico, sofreu por vários dias até sarar.

Meu questionamento a respeito da doutrina citada chegou ao ápice no início de 2002 quando eu tentei “determinar” que um cachorro do meu avô, que estava muito doente, não morresse. Adivinhem o que aconteceu? Ele morreu! A única resposta que me era dada era de que o problema era comigo, que não tive fé suficiente.

Baseado nessa dúvida e em outras menores, que não me foram dadas respostas convincentes, passei a deixar aos poucos os cultos. Com isso minha mãe, que já era obreira na igreja (espécie de assistente do pastor), me cobrava constantemente sobre minha frequência aos cultos. Fui empurrando com a barriga e levando minha vida no mundo como todos os outros adolescentes de minha idade, até que parei em definitivo de ir aos cultos.


Em 2006, com 17 anos, já havia parado há um bom tempo de ir a qualquer igreja. Nessa época considerava todos os cristãos como ignorantes e sem cultura. Mas, ainda havia uma inquietação dentro de mim, não via sentido na vida cotidiana, já que excluía Deus dela. Passei a ler livros de esoterismo, como os livros do Paulo Coelho. Também iniciei um processo de perguntar em fóruns teológicos no extinto Orkut sobre minhas dúvidas. Nessa época fui muito surrado nesses grupos, pois era mais ignorante que hoje e fazia perguntas mal formuladas. Confesso que me decepcionei com a forma com que os cristãos me tratavam quando os questionava. Parece que causava-lhes inquietação e tentavam me calar a todo custo. Tudo isso só foi reforçando a imagem que eu tinha, de que cristãos eram anti-intelectuais.

Ainda no ano de 2006 passei a não ver sentido na vida, de forma que cogitei seriamente dar cabo em minha vida. Pensava que não havia razão em estudar e trabalhar se no fim iríamos todos morrer e não ser mais nada.

No ano de 2007 iniciei um relacionamento amoroso com uma moça da minha antiga igreja. Passei a frequentar algumas denominações com ela, já que ela tinha amigos em muitas delas. Frequentei tudo que se possa imaginar, indo de Batista da Convenção, até Bola de Neve Church. Nessa fase da minha vida me sentia perdido em todos os sentidos, mas passei a me divertir gozando os prazeres da carne e tentando abafar a voz de minha alma que clamava por sentido. Em todas essas denominações que frequentei, sempre achei problemas de ordem lógica no ensino e nunca consegui ver algo coerente.

Em 2009, passei a ouvir uma série de mensagens sobre uma linha teológica chamada Calvinismo. Devorei todo o conteúdo em áudio que era oferecido por um pastor brasileiro que morava nos EUA e mantinha um site com conteúdo em português. Nessa época tinha tempo e desejo de aprender, então realmente me aprofundei no assunto buscando ler artigos, livros e interagindo com pastores e autores. O que me levou a amar essa linha teológica é que pela primeira vez vi sentido em algo que vinha do cristianismo, vi algo de racional nisso tudo, e isso me encantou!

Mesmo estando encantado com o Calvinismo, enfrentei problemas ao tentar praticar essa fé. Buscava de todas as formas ser salvo, queria ter convicção de que eu era um eleito, ou seja, um predestinado ao céu, como ensina essa visão teológica. Quanto mais tentava, menos certeza tinha. A principal dúvida era porque não conseguia deixar de praticar pecados graves, mesmo sabendo que era errado e desejando parar. Disse para um pastor dessa linha, que não tinha medo do inferno e ele me respondeu dizendo algo do tipo, “se você não tem medo do inferno e continua a amar o pecado, é porque você não foi salvo e o que lhe resta agora é implorar que Deus ilumine seu entendimento e lhe salve”. Você pode imaginar a angústia que senti? Mais uma vez o subjetivismo falava mais alto, mais uma vez não encontrei respostas.
Pelo período que vai de 2010 ao meio de 2011, passei a viver minha vida evitando qualquer pensamento a respeito de religião e sentido da vida. Passei a viver como grande parte das pessoas vive, sem pensar em algo transcendental.

Na segunda metade de 2011 aconteceu algo marcante em minha vida, terminei o relacionamento de 4 anos e meio que vivi até então. No mês do término fui passar um mês na casa de um tio que morava em outra cidade. Na casa dele tive contato com a obra Ensaios Céticos, do Bertrand Russell. Devorei essa obra e achei que finalmente tinha achado um sentido para a vida. Mesmo que o que autor me deu foram apenas mais dúvidas. O maior bem que adquiri com essa obra, foi aprender a duvidar de tudo, de tudo mesmo, até mesmo de mim.

Nessa época passei a me declarar como agnóstico.
Após terminar o relacionamento amoroso que tinha, passei a me juntar com um amigo da faculdade de computação, curso que havia iniciado em 2010, e passamos a estudar filosofia. O que me motivou a iniciar esse estudo foi novamente a busca de um sentido para minha existência.

Nessa época me dedicava mais ao estudo de filosofia do que no próprio conteúdo da minha graduação. Infelizmente optei por um mau caminho e iniciei meus estudos por autores modernos e céticos, talvez buscando matar as dúvidas que me inquietavam. Afundei-me em autores como Friedrich Nietzsche e Sartre. Mas, quanto mais estudava filosofia mais perguntas surgiam e a inquietação aumentava. Novamente estava pensando em tirar a minha vida, dessa vez de forma mais contundente. O único fato que me impediu foi o senso de que pessoas que amo sofreriam com minha morte.

Minha mãe, que continuava indo à igreja, agora frequentava uma igreja Batista tradicional. Igreja indicada por mim, que nessa época me declarava agnóstico. Recomendei a igreja Batista para minha mãe, pois cansei de vê-la perdendo dinheiro e a paz na seita do Soares. Indiquei a Igreja Batista, pois embora não cresse no que ensinavam, via que era uma instituição séria.

Tentava viver uma vida normal, como as pessoas ao meu redor, focando na vida material e nos prazeres. Minha vida sob esse aspecto era muito boa. Cursava uma boa faculdade, tinha um carro, não precisava trabalhar podendo focar apenas nos estudos, frequentava festas e bares, em suma tinha tudo que um jovem da minha idade poderia querer. Entretanto, nada disso me satisfazia.

No início de 2013 sofri dois grandes baques, perdi meu querido tio e um amigo próximo. A perda desse amigo, que tinha o mesmo perfil que eu, me fez pensar novamente na minha finitude e um pensamento era constante em mim: Por que não eu? Esse meu amigo gozava de saúde perfeita, estava no auge de sua vida e de repente, sem sofrer acidente ou violência, simplesmente foi dormir e não despertou jamais. Sentia como se Deus estivesse me dando uma segunda chance. Mesmo ainda não tendo convicção de que Deus existia, decidi que se Ele existia iria encontrá-lo.

Por incrível que pareça o livro que mais me ajudou a sair do materialismo ateísta, foi o livro Ensaios Céticos, do Russell. Apliquei o princípio nele ensinado, de questionar tudo, e questionei o próprio materialismo pregado pelo autor.

Uma vez que comecei a duvidar dos princípios materialistas voltei a estudar argumentos deístas. Descobri por exemplo, o livro Vencedor em todas as batalhas, Luiz Waldvogel. Livro que traz respostas às principais objeções ateístas/materialistas. Uma frase, em especial, ficou para sempre em minha memória, frase dita por Voltaire, famoso ateu: “eu crer tento em vão, que haja um relógio e um relojoeiro não”. Outro livro que me ajudou bastante nessa fase foi A linguagem de Deus, Francis Collins, onde o autor, cientista diretor do projeto Genoma, mostra como, pela estudo do DNA humano, chegou a conclusão de que existe um Criador.

Todas as leituras e reflexões que fiz nessa época me levaram a uma firme convicção de que existia um Criador para a Criação. Até então não ousava afirmar quem era esse Criador.

Uma vez convicto da existência de um Criador, passei a estudar as diversas visões sobre Deus nas religiões mais conhecidas. Estudei um pouco de tudo, mas a religião que prendeu minha atenção por mais tempo nesse período foi o Espiritismo. Além de estudar as obras de Alan Kardec, tive algumas experiências que levaram a crer na doutrina espírita. Fiquei por um tempo pendendo para a prática dessa religião, sendo que o que me afastou dela foi a incoerência com o Cristianismo, religião que ela alega se basear. Não consegui ver nexo, por exemplo, entre a afirmação espírita sobre reencarnação e a afirmação clara da Bíblia em Hebreus 9,29 “… aos homens está ordenado morrer uma só vez, vindo depois disso o juízo”. O fato é, se o Espiritismo não tentasse se misturar com o Cristianismo, provavelmente teriam me agregado como um seguidor.

Passado a fase de encantamento com o a doutrina espirita, pensei em reconsiderar a fé cristã. Para isso tentei descobrir algum autor cristão erudito. Já que nessa época ainda carregava comigo a impressão falsa de que todos os cristãos eram ignorantes e simplórios. O primeiro autor selecionado, que atendia ao critério de erudição, foi C.S. Lewis, sendo meu primeiro contato com sua obra, Cristianismo Puro e Simples. Nessa obra pude ver o a religião cristã sendo exposta de uma forma que fazia sentido. Pela primeira vez via lógica naquilo tudo! Não era mais um monte de histórias da carochinha. Nessa obra o autor não busca passar uma ideia rebuscada sobre o Crristianismo, nem entra em controvérsias teológicas, mas foca em passar o centro da visão cristã de forma simples.

A segunda obra que me ajudou no meu estudo sobre o Cristianismo foi Surpreendido pela Alegria, do mesmo autor. Nesse livro, Lewis conta um pouco sobre sua experiência de conversão ao Cristianismo, ele que antes era um ateu, diz como encontrou uma alegria infantil, um deslumbramento encantado de momentos felizes e sublimes vividos em sua infância. Mostra como pôde voltar a se encontrar com esse sentimento perdido ao encontrar Cristo. Esse livro me marcou muito! Fiquei encantando com a história de Lewis, e passei a ver Jesus com outros olhos.

Nessa época ainda me deparei com um livro de C.H. Spurgeon, chamado Tudo pela Graça. Nesse livro o autor, calvinista, mostra como se pode entender a salvação, segundo o ponto de vista protestante calvinista. Lembro-me de ficar encantando com a ideia de redenção em Cristo, com a ideia da substituição vicária, em que o inocente morre para pagar os pecados dos culpados, não lhes imputando mais suas punições e preservando ainda a Justiça de Divina, já que alguém saiu impune. Oh, como esse autor dizia ser a salvação algo simples de se alcançar! Mas, como eu achava difícil! Como poderia acreditar que apenas por confiar em afirmações sobre a obra de Cristo me faria ser salvo? Como poderia descansar nisso?

Para lidar com a angústia em ler o livro anterior, procurei ajuda em outro livro do mesmo autor, chamado Diante da Porta Estreita, livro que ajudou a retirar os impedimentos que me barravam no caminho da salvação. Com esse livro aprendi por meio de metáforas. Como por exemplo, de que um sujeito que esperasse entender todo o processo digestivo para se alimentar morreria de fome e que o sujeito ignorante sobre todo o processo digestivo seria salvo apenas por comer o que lhe foi oferecido. Essas comparações me ajudaram a me entregar a Cristo e aceitar o dom gratuito da vida eterna.

A partir de então, não sei precisar o dia exato mas em algum momento, trancado no meu quarto ainda na casa dos meus pais, passei a crer no que lia nos livros e na Bíblia. Ainda tinha dúvida e desconhecia muitas coisas, mas em meu coração assentia com aquilo que me era dito. Ainda não estava procurando ir a alguma igreja ou me filiar a alguma religião, mas sabia que algo havia mudado.

Em uma ocasião, ao almoçar com amigos da faculdade, ateus, antes de iniciarmos a refeição, curvei minha cabeça para dar graças pelo alimento. Nesse momento eles olharam estupefatos para mim, que era um grande blasfemador, e riram, achando que eu estava brincando. Mas, para grande surpresa deles, disse-lhes que estava fazendo aquilo sério, que cria no que fazia. Nesse momento me perguntaram qual era a minha religião e disse-lhes em um ato impensado: Cristão! Ao ouvirem isso eles ficaram sem reação e passaram a pisar em ovos para falarem comigo. Enfrentei muito escárnio e provocação nessa época, já que todos do meu convívio próximo, na faculdade, eram ateus.

Passado a fase de redescoberta da fé cristã e de assentimento, passei a considerar a qual igreja deveria me filiar. Sabia da necessidade de me filiar em alguma. Para isso passei a procurar utilizando o único critério que conhecia: a Bíblia. Procurei o que a Bíblia dizia sobre Igreja. Baseado nesse estudo e nas boas lembranças que possuía da doutrina calvinista procurei uma igreja que se aproximasse desse ensino.

Ao procurar por igrejas de linha calvinista em minha cidade me deparei com um site, Palavra Prudente, site esse administrado pelo meu futuro sogro, Calvin Gardner. Consegui marcar um horário para conversar com ele, onde percebi um alinhamento grande em entendimento do que as Escrituras diziam. Descobri que havia uma igreja, iniciada por ele, aqui em minha cidade. Essa igreja é a Igreja Batista Bereana, igreja de linha batista fundamentalista.

Em seguida, marquei uma conversa com o filho dele, que na época era o dirigente, função que exerce o mesmo trabalho de um pastor, mas que por não ser consagrado/ordenado ao pastorado, não é chamado de pastor (isso no meio batista fundamentalista). Nossa conversa foi produtiva, e descobri que realmente queria me tornar parte daquela igreja. Ao indagar o que precisava fazer para me tornar membro, foi me dito que precisaria esperar um tempo frequentando os cultos para que então fosse apresentada à congregação o meu desejo de me tornar o membro, momento então que eu poderia ser aceito mediante um novo batismo, realizado por essa igreja.

Passado algum tempo que eu estava frequentando a Igreja Batista Bereana, aproximadamente seis meses e fui aceito como membro mediante batismo. Fui batizado pelo meu futuro cunhado, não o dirigente da igreja, mas seu irmão, que era consagrado ao ministério pastoral. (não que a igreja cresse que a consagração fosse uma condição necessária para realizar o batismo).

Tendo me tornado membro da Igreja Batista Bereana, em dezembro de 2013, em pouco tempo já estava trazendo estudos bíblicos para a congregação e participando de evangelismos, onde fazia pregações em lugares públicos.

Nessa época estudava com afinco obras teológicas protestantes. Li obras de famosos teólogos como: A.W. Pink, João Calvino, Paul Washer, John Wesley, C.H. Spurgeon, Vincent Cheung, Cornelius Van Til, Gordon Clark, C.S. Lewis, John MacArthur, R.C. Sproul, Martyn Lloyd Jones, entre muitos outros nomes conhecidos no meio.

Em 2014 me casei com a filha do Pastor Calvin Gardner, Joy, que conheci na igreja. Nosso namoro e casamento fora fundamentado em nossa fé em comum. Nosso assunto era quase que único: teologia. Amávamos a Deus e queríamos servi-Lo da melhor forma.

Em todo esse tempo uma coisa me incomodava: ver como não havia unidade no pensamento protestante. Era impossível que houvesse concordância entre um irmão, esclarecido em teologia e outro. De início tinha a ingênua ideia de que ao debater com um irmão que pensava diferente, bastaria mostrar-lhe na Bíblia o ensino correto e ele mudaria de ideia, mas com o tempo percebi que não era bem assim. Nunca vi, em cinco intensos anos de protestantismo (sem contar o tempo como pentecostal), dois irmãos mediante debate a um consenso pela Verdade. O que sempre acontecia era um sair bravo com o outro ou relevarem as diferenças para manterem a amizade.

Outro ponto que me inquietava era a história do Cristianismo. Já havia tido contato com alguma bibliografia a respeito antes de me tornar cristão, quando estava estudando as religiões. Em toda obra séria que li sobre o assunto, sempre entrava em conflito com a visão que nos era ensinada no meio batista fundamentalista.

A visão de história que nos era passada era a do livro O Rastro de Sangue  – J.M. Carroll. Nessa versão peculiar da história, é defendida a tese de que os batistas são a verdadeira igreja, preservada ao longo dos séculos. O catolicismo seria uma distorção do verdadeiro cristianismo da era apostólica, e tudo que sobrou de cristianismo verdadeiro eram pequenos grupos espalhados e marginais, fugindo da implacável perseguição católica. Esses grupos eram encontrados pela perseguição que sofriam por portarem a verdade, daí o nome do livro. A única forma de identificar esses grupos, segundo o autor, era pela doutrina em comum que possuíam. Doutrinas essas, que convenientemente batiam com o que os batistas modernos creem.

O problema com a teoria do Carroll é que não resiste a um mínimo estudo sério de história e não passa sequer no crivo da lógica! Foi nos ensinado que não poderíamos provar historicamente a existência dessas igrejas perseguidas porque a história é escrita pelos vencedores, no caso os “romanistas”, sendo assim teríamos que ler as entrelinhas procurando qualquer resquício desses grupos. Bom, se isso é verdade, qual o critério de falseabilidade da teoria? Ou seja, qual o argumento poderia ser dado para que a tese deixe de ser considerada verdadeira? Toda ciência séria possuí critérios de aceitação e de negação de uma tese levantada. Seria como se eu dissesse que vi um unicórnio, mas que você não poderá vê-lo pois ele entrou em outra dimensão nesse exato momento. Qual seria o critério de falseabilidade para essa afirmação? Seguindo uma boa lógica seria mais correto afirmar que não havendo provas históricas para a tese levantada no livro os seus defensores deveriam se calar até que conseguissem alguma prova e não sair gritando que acharam a verdade.

Certa vez, conversando com um amigo pastor sobre o assunto, perguntei-lhe como poderíamos acreditar em algo assim, algo que não tínhamos prova. Ele me respondeu que teríamos de confiar que Deus preservou o seu povo do engano, pois se não Cristo estaria descumprindo a sua palavra, quando disse que estaria conosco todos os dias até a consumação dos séculos e de que as portas do inferno não prevaleceriam contra a sua Igreja. (Mt. 28,20; Mt. 16,18).

Para não ser leviano com a questão é preciso deixar claro que essa teoria não é nem de perto a mais aceita entre os protestantes. Sendo a visão mais bem aceita a de que a Igreja verdadeira não se trata de uma instituição visível, mas de um organismo espiritual, sendo a universal assembleia, espalhada por todo o mundo, sendo constituída pela união de todos aqueles que foram salvos por Cristo. Dessa forma as igrejas visíveis são apenas agências do Reino de Deus e meios de tornar visível a realidade espiritual da Igreja Universal e invisível. Indo por esse caminho não constituí obstáculo nenhum para um protestante não encontrar uma instituição visível, que represente os seus ensinos, durante algum período da história. Por exemplo, a maioria dos protestantes pensa que durante o período que chamam de Idade das Trevas não houve nenhuma igreja visível que pregava corretamente o Evangelho (enquanto instituição), o que para eles não excluí o fato de que muitos foram salvos por Cristo nesse período.

Mesmo com esse tipo de dúvida, fui me envolvendo cada vez mais com a igreja batista e com a fé protestante. Em 2015 assumi a direção da Editora/ Loja Online de livros protestantes, E-Fundamentos, mantida até então pela minha esposa. Em algum momento, ainda em 2015, quando meu cunhado deixou o cargo de dirigente da igreja (pastor não ordenado), fui convidado a ocupar a posição, tendo então me tornado líder na Igreja Batista Bereana.

Fiquei como único pregador da igreja por um bom tempo. Tendo que preparar sermões para as quartas-feiras e os domingos (duas pregações), sem contar as viagens que fazia aos sábados, para pregar na casa de alguns irmãos que moravam em outra cidade.

Envolvi-me cada vez mais com o estudo bíblico e de teologia protestante. Quanto mais estudava, mais dúvidas surgiam. Lia um comentarista para me ajudar a preparar um sermão, depois ia ler outro, tão erudito quanto, e lia o contrário do ensino do primeiro. Esse tipo de situação me fazia muitas vezes juntar um pouco de cada um com um pouco do que eu entendi do texto e pregar com base nisso. Via aquele povo sedento por ouvir as Escrituras sendo ensinada, desejando ser alimentado por ela, e me via no dever de fornecê-los algo. Fazia o melhor que podia fazer, mas não sentia que fosse o bastante, sempre me sentia um farsante.

A imprecisão na interpretação bíblica me fez começar a enxergar que havia algo errado com o jeito protestante de pensar. Busquei os melhores materiais de apoio, estudei os melhores autores, e mesmo assim o problema não era sanado. Entre os próprios gigantes da teologia protestante havia divergências enormes! A quem seguir? Essa pergunta me angustiava muito. Na divergência entre dois grandes autores, no mesmo grau de erudição e com a mesma conduta ilibada, como escolher quem estava certo? Quem julgaria o caso? Alguns diriam: a Bíblia, ora! Bom, eu também pensava isso! Mas, me diga caro leitor: se ambos possuíssem bons argumentos retirados da mesma Bíblia, como julgar quem estava certo? Poderíamos escolher um deles, normalmente o que mais nos agradou, mas nesse caso, o juiz da questão deixaria de ser a Bíblia e passaria a ser nós mesmos.

Como exemplo de divergência irreconciliável que encontramos no protestantismo, podemos mencionar a questão da salvação pelo senhorio. Teoria que diz que a fé salvífica não é uma fé apenas intelectual, não apenas um assentimento com algo, mas uma submissão/ obediência ativa. Ou seja, para alguém ser salvo Cristo precisa ser senhor na vida dele. Não bastaria fazer uma profissão pública de fé, como é ensinado pela maioria dos protestantes de linha evangélica. Essa visão é defendida por grandes nomes da teologia protestante de linha reformada, entre eles, John MacArthur, autor que escreveu vários livros sobre o assunto, sendo os principais, O Evangelho Segundo Jesus e O Evangelho Segundo os Apóstolos. É bom deixar claro que há controvérsia sobre a própria nomenclatura.

O próprio John MacArthur deixa claro que não crê que a salvação vem por obras, mas pela fé em Cristo e que apenas define biblicamente o que é fé. Já os seus adversários o acusam de pregar salvação por obras e usam a nomenclatura de salvação por senhorio em sentido pejorativo. MacArthur deixa claro que não se importa de ser chamado de pregador de salvação por senhorio, desde que isso signifique que Jesus não pode ser salvador de alguém sem o ser também senhor. Do outro lado, temos os protestantes que pregam uma fé fácil, onde basta ir à frente da igreja e repetir uma oração, evento que chamam de aceitar Jesus. Sendo isso suficiente para a salvação. Defendem ainda a tese de que Cristo pode ser salvador de alguém, sem nunca se submeter a Ele como senhor, ou apenas fazendo isso tardiamente, sem que isso interfira em sua salvação.

Essa questão de salvação por senhorio causa uma divisão enorme entre os protestantes. Ao estudar a questão fiz um exercício mental, imaginei que eu fosse alguém não instruído e que não pudesse ler a Bíblia por mim mesmo, a minha pergunta é, se o meu único meio de instrução a respeito da salvação fosse um pastor desses, qual seria a minha esperança? Escolher o pastor certo? Como poderia saber se entendi certo o plano de salvação e se iria ser salvo ou não? Indo um passo além, poderia aplicar até mesmo para mim, que sou instruído; ambos os lados se baseiam na Bíblia e possuem grandes intelectos os defendendo, quem seguir? Qual tem razão? Quem é será o juiz da disputa?

Com o nascimento dos meus filhos minha rotina se tornou cada vez mais agitada. Tendo que pregar várias vezes na semana, fazer visitas a irmãos, dar aconselhamento, cuidar da família e ainda lidar com minha ocupação secular, já que nunca deixei de tê-la, consegui passar bastante tempo levando tudo no automático, deixando os meus questionamentos de lado e apenas tocando o barco. Com isso rapidamente se passaram dois anos, até que em 2017, em meados de janeiro/ fevereiro, entrei em contato com o livro Todos os Caminhos Levam a Roma  – Scott e Kimberly Hahn. Não me recordo como encontrei esse livro, apenas que fiquei intrigado ao ler o prefácio e comecei a ler por curiosidade. Quando vi estava deixando de fazer outras atividades para ler esse livro, o devorei em pouco tempo! Oh, quantas perguntas aquele livro colocou em minha mente! E ao mesmo tempo me trouxe esperança de encontrar a Verdade que tanto procurava.

Várias coisas me chamaram a atenção naquele livro, mas a principal delas foi descobrir os Pais da Igreja. Por incrível que pareça, nunca havia ouvido falar desses grandes homens! Imediatamente comecei a lê-los, iniciei lendo os mais antigos os chamados Pais Apostólicos. Li todos que tive acesso. Comprei o volume um da famosa edição de capa verde da Editora Paulus. Fiquei espantado em ver a riqueza do conteúdo e triste por ter demorado tanto para encontrar essa obra tão rica. Também estudei bastante o livro História Eclesiástica  – Eusebio de Cesareia. A Igreja que vi na descrição daqueles santos homens, se parecia muito mais com a Igreja Católica do que com a Igreja Batista. Vi, por exemplo, em Inácio de Antioquia, a importância de se submeter à hierarquia eclesiástica, sendo representada na pessoa do Bispo. Inácio deixa claro que quem vai contra a autoridade constituída por Deus na Igreja, vai contra o próprio Deus e deixa a comunhão dos santos. Vi ainda a forma como aqueles homens lidavam com o batismo.

Na Didaqué, obra de instruções práticas da fé cristã, fica claro que não era dado importância para a quantidade de água usada no batismo. Ensino contrário ao dos batistas, de que só o batismo por submersão é válido. É interessante notar que se trata de uma obra do primeiro século, sendo uma obra contemporânea aos apóstolos! Tanto que é chamada de ensino dos apóstolos.

Continuei o estudo da patrística e pude ver muitos outros ensinos que coadunam com a Doutrina Católica. Entre eles o sacramento da Eucaristia. Vejamos uma frase de Santo Irineu de Lyon, final do segundo e início do terceiro século:

Se , pois, a mistura do cálice e pão recebem a palavra de Deus tornando-se a Eucaristia do Sangue e do Corpo de Cristo, pelos quais cresce e se fortifica a substância de nossa carne, como se haverá de negar à carne, assim nutrida com o Corpo e Sangue de Cristo, e feita membro do seu corpo, a aptidão de receber o dom de Deus, a vida eterna?

Muitos protestantes argumentam que aí já estava o engano sendo propagado. Muitos usam como ponto de apoio o argumento de que os próprios apóstolos avisaram que do meio deles sairiam homens maus que não poupariam o rebanho (At. 20,30). O problema é que se partirmos para essa argumentação, teríamos que duvidar do próprio Cânon Bíblico. Lembrando que só fomos ter uma lista completa dos livros do Novo Testamento no ano 393 d.C., no Concílio de Hipona. Seria aquela Igreja apta para reconhecer/ confirmar a lista dos livros sagrados? Se não era digna de confiança para guardar o Depósito da Fé, por que seria para definir a lista oficial dos livros?

Outra fonte de informação muito importante que usei para me informar sobre os Pais da Igreja, foi o curso de Introdução à Patrística e à Patrologia, ministrado pelo Rafael Brodbeck. Esse curso me ajudou muito pela minha falta de tempo em ler elementos posteriores aos padres apostólicos. Sendo o curso oferecido em vídeo-aulas, me permitiu ouvir as aulas enquanto fazia alguma tarefa manual, como lavar louça. Gostei muito da didática do Rafael e do rico conteúdo que ele conseguiu comprimir em pequenas vídeo-aulas. Foi muito interessante ver como a fé da Igreja continuou a ser propagada mesmo em meio a perseguições e de que nunca deixou de haver a Igreja como instituição na história.

Paralelo aos estudos, comecei a dialogar com católicos praticantes. Queria ver como toda a teoria que estudava se aplicava no dia a dia. Iniciei uma amizade com um amigo de infância de meu melhor amigo, Pedro Ferraz, membro do Instituto Cristandade e da banda católica Terra da Cruz. Fui muitas vezes em seu apartamento onde fui acolhido por ele e por sua esposa Karina. Tínhamos longas conversas a respeito da fé católica, mas o que mais me chamava atenção era o amor que eles demonstravam por Jesus. Como protestante nunca imaginava que católicos podiam amar a Cristo verdadeiramente. Sempre medi os católicos por aqueles mais próximos a mim, que eram sempre pessoas que não se importavam com Cristo ou com a fé cristã.

Outro exercício investigativo que fiz, foi frequentar algumas missas. Por ainda fazer parte de uma igreja Batista e por ocupar uma posição de liderança, frequentava missas em horários de pouca frequência, como por exemplo, sexta-feira no período da tarde. Não queria ser visto indo à Missa, pois achava que causaria escândalo à fé de meus irmãos protestantes, que não entenderiam que estava indo para investigar a fé católica. Infelizmente tinha que agir como se estivesse fazendo algo errado, dava voltas com meu carro nas imediações da Igreja, para só então, quando me certificava que não havia ninguém conhecido por perto, entrar.

Uma coisa que me deixou espantado foi ver o quanto o padre lia a Bíblia na Missa. Pensava que católicos não conhecessem as Escrituras, mas estava enganado a respeito disso. Como era bonito ver como as leituras se encontravam, tudo estava ligado! Também fiquei surpreso ao descobrir que se um católico for às missas todos os dias por três anos, verá a Bíblia sendo lida inteira diante dele (substancialmente).

Continuei relutando por muito tempo contra a fé católica. Tentava encontrar algum argumento forte o suficiente para poder continuar protestante. Procurei ler e ouvir opositores ao catolicismo. Ouvi o testemunho do ex-padre Aníbal, que se tornou um pastor batista. Ouvi todas as críticas feitas por ele, mas não vi profundidade e acabei percebendo que a história dele era muito parecida com a de Martinho Lutero, que possuía problemas de fé particulares e acabou jogando aquilo para a Igreja. O Aníbal possuía um terrível medo de se perder, medo esse que não é encontrado em um católico que vive plenamente a fé católica. Há sim um cuidado em permanecer na graça, mas nunca um medo desesperado de ir para o inferno, como se pode notar no relato do Aníbal. Outra coisa que pesou contra o ex-padre, foi a falsificação grosseira que foi feita por ele em um documento de um cardeal católico. Falsificação provada pelo próprio cardeal em questão, que usou documentos oficiais para isso.

Outra forma que coloquei o ensino católico a prova, foi debater com um pastor amigo. Esse pastor é mestre em teologia e professor de seminário, um sujeito muito sagaz e aberto ao diálogo. Discutimos em várias ocasiões, onde ele me lançava muitos pontos difíceis que me instigavam a estudar mais. Algo que ficou mais claro para mim em nossas discussões foi que realmente o Sola Scriptura não é uma base sólida para defesa da fé. Já que ele defendia muito bem seus pontos usando a Bíblia, mas nunca podia me dar uma certeza absoluta sobre assunto algum. Sempre havia um argumento tão bom quanto, tirado das mesmas Escrituras. Outra coisa que ficou claro, é que protestantes, por mais estudados que sejam, não conhecem verdadeiramente o ensino católico. Julgam a Igreja por aquilo que leram de outros teólogos protestantes, e nunca pelo que de fato Ela é. Não estou dizendo que esse amigo seja desonesto, apenas de que não estudou o suficiente sobre o assunto.

Algo que foi de grande valia em minha jornada foi ler apologistas católicos vindos do protestantismo. Entre eles posso citar: Steve Ray, Scott Hahn, Dave Armstrong, Robert Sungenis, Bernardo Küster e Fábio Salgado de Carvalho. Desses mencionados o que mais minou a minha fé protestante e me ajudou a tomar uma posição final foi o Fábio Salgado de Carvalho. Ajudou-me não só com conteúdo, mas respondendo dúvidas que lhe enviava. Em todos esses homens vi argumentos sólidos e honestos em defesa da fé católica. Vi homens que realmente conheciam o assunto que falavam, não davam palpite, mas diziam sobre aquilo que se dedicaram a estudar. Mostraram-me que há sim base bíblica para o catolicismo. Também acompanhei muitos debates entre eruditos católicos e protestantes, que me ajudaram a ver a solidez da argumentação católica.

Vive por um longo período uma vida dupla, em que estudava muito sobre o catolicismo, mas não deixava de exercer minha fé protestante e de cuidar da Igreja Batista que eu era responsável. Não conseguia me desvincular da fé protestante, na verdade não queria. Fui muito relutante, realmente tentei recalcitrar contra os aguilhões (At. 9,5). Um momento crucial em minha jornada, onde comecei a cansar de lutar contra a Verdade, foi o momento em que presenciei a celebração da sexta-feira santa no Instituto Cristandade. Vi pela primeira vez Nosso Senhor crucificado, representado por uma escultura viva em detalhes e muito sanguinolenta. Essa representação mexeu muito comigo e a única coisa que vinha a minha mente, vendo Cristo crucificado, era:

“Fiz isso por ti, sofri tudo isso por ti, e tu, o que fazes por mim? Não é capaz de assumir-me perante os homens!”

Isso mexeu muito comigo e daí em diante fui cada vez mais tentando me desvincular da fé protestante e de meus compromissos como líder de uma comunidade.

Em suma, de todos os fatores que estudei e ponderei, o maior deles foi a realidade. Como protestante tendia a enquadrar a realidade no que a Bíblia dizia. Olhava para a realidade com esse preconceito. Cheguei à conclusão de que essa não era a forma correta de se alcançar a Verdade. O ponto de guinada foi quando comecei a olhar o cristianismo através dos séculos e ver que a Bíblia é fruto de uma tradição, tradição viva mantida pela Igreja. Não foi a Bíblia que gerou a Igreja, mas a Igreja quem produziu a Bíblia. Ao entender isso pude perceber que quem decide o que um texto da Bíblia significa não é o leitor em sua subjetividade, mas a forma que a Igreja leu o texto através da história.

Assim encerro a exposição dos argumentos que me levaram a tornar-me católico. Estudei muitas outras coisas nesse período de busca intensa, que durou um total de um ano e meio, mas não vejo proveito em relatar todas elas nesse espaço. Pretendo iniciar uma produção constante de artigos sobre o tema onde abordarei questões individuais de forma mais detalhada.

Na parte final de meu relato gostaria de contar como foi o meu processo de desligamento do protestantismo e início na fé católica. Logo que decidi me tornar católico, planejei esperar alguns meses para fazer uma transição suave em que causasse o mínimo de sofrimento possível aos irmãos da Igreja Batista Bereana e a minha família. De forma que adiei essa transição por alguns meses. Quando chegou o momento iniciei o processo pedindo desligamento da Igreja Batista Bereana. Não aleguei motivos doutrinários, não entrei nesse mérito, por achar que dentro da proposta da igreja, que é ser uma igreja Batista Fundamentalista, não havia o que ser discutido, já que seguiam essa doutrina como sempre fizeram. Não havia divergência com a igreja em questão, mas com todo o ideário protestante. Também não me sentia forte emocionalmente para discutir questões teológicas ou entrar em debates. E naquele momento daria ainda uma última chance ao protestantismo. Prometendo à minha esposa que me submeteria a ouvir pregações de outros pastores mais experientes.

Minha família estava desgastada e a única coisa que queria naquele momento era movê-la para um ambiente de estabilidade. O lugar escolhido, em conjunto com minha esposa, foi na igreja em que minha sogra e cunhada eram membros, já que sabia que minha esposa não aceitava a fé católica. Quando houve essa transferência minha esposa já estava sabendo de minha inclinação ao catolicismo, embora não soubesse ainda o nível dessa inclinação.

Ao iniciar a transferência para a nova igreja, também de linha batista, fundada por dois ex-alunos do meu sogro, conversei com eles sobre meus planos de levar minha família para lá e de que frequentaria os cultos como visitante. Os dois pastores acabaram entrando no tema catolicismo, mesmo não sendo meu objetivo com a conversa. Ambos mostraram um total desconhecimento do que é o catolicismo e do que ele ensina. Apenas repetiram os mesmos clichês anticatólicos de sempre e disseram que eu não era salvo.

Fiquei por aproximadamente um mês frequentando essa igreja com minha família. Certo dia minha esposa me perguntou de forma direta sobre o meu nível de assentimento com a fé católica. Respondi francamente a pergunta, de que já não restavam dúvidas em minha mente, mas apenas uma procrastinação em tomar a decisão final. Depois de nossa conversa deixei de ir aos cultos e passei a frequentar todas as missas que podia. Minha esposa não deixou de demonstrar sua contrariedade e tristeza com minha ida ao catolicismo, sem contar a profunda tristeza que senti ao deixar de ir com meus amados para a Igreja, como sempre fizemos.

Meu retorno aos sacramentos da Igreja se deu com minha primeira confissão, uma confissão geral onde tive que expor todos os meus pecados mortais de toda a vida. Essa confissão foi muito especial para mim, me sentia como se um caminhão tivesse sido tirado de minhas costas. Fiz essa confissão com um padre alemão, bem velhinho e piedoso, chamado Joseph. Em seguida conversei com o bispo sobre o que deveria fazer para participar da Eucaristia e sobre a validade do meu casamento. O bispo, Dom Benedito, foi muito atencioso e resolveu as questões na mesma hora. Consultou um padre especialista em direito canônico que confirmou a validade de meu casamento. Eliminado esse obstáculo, o bispo verificou o que eu sabia sobre a Eucaristia. Tendo verificado meu conhecimento sobre o assunto, me autorizou a comungar pela primeira vez.

Ofereceu-me de acompanhá-lo em alguma Igreja onde ele celebraria a Missa e lá receber minha primeira Comunhão. Conversei com ele na quinta-feira e me disse que na sexta, 03 de agosto de 2018, celebraria uma Missa na capela do colégio Cristo Rei, o mesmo colégio em que recebi as primeiras lições sobre a fé católica. Minha alegria foi muito grande, pois vi nisso a providência Divina agindo. Na sexta-feira, às 6h da manhã, junto de minha mãe e de meu amigo Pedro Ferraz, participei da santa Missa e recebi pela primeira vez o excelso sacramento. Oh que momento feliz! Poder receber meu Senhor, completo, em mim e me tornar uma só carne com meu amado! No final contei um pouco para as madres que ali estavam sobre minha jornada o que as deixou exultantes.

Desde então venho vivendo com alegria a vida católica, participando sempre dos sacramentos. Ainda não fui crismado, espero em breve receber esse excelso sacramento. Hoje minha maior dificuldade é a dor que causo a minha esposa, por ter me tornado católico. Ela não vê o catolicismo como uma vertente do cristianismo válida, mas como uma religião falsa. Oro por ela e busco ser um melhor esposo e testemunhar com ações e palavras sobre a fé católica.

Gostaria de deixar claro que não vejo meus irmãos protestantes como pessoas que não são cristãs. Conheci ótimas pessoas nessa minha jornada, nas mais diferentes denominações. Creio firmemente que pela ignorância a respeito da Igreja Verdadeira, Jesus pode salvar esses queridos irmãos apesar de rejeitarem sua Igreja. Vejo-os como pessoas que precisam de um maior crescimento na Verdade e desejo profundamente a conversão deles à fé católica. Também gostaria de deixar claro que não considero perdido todo o tempo que passei na Igreja Batista Bereana, aprendi e ensinei muitas coisas corretas vindas das Escrituras e que levarei para a vida.

Gostaria de alertar aos leitores protestantes de grande instrução a tomarem cuidado com o que fazem de suas vidas. Peço que estudem seriamente o assunto do catolicismo, para só depois opinarem. Se querem criticar com seriedade a Igreja Católica, leiam pelo menos o Catecismo. Veja, se é tão anti-bíblica a fé católica, isso deverá saltar aos olhos no estudo, não há o que temer. Deixo esse alerta, pois alguém nessa condição, que se recusa a estudar, tendo os meios para isso, não poderá jamais alegar ignorância quando estiverem diante do Justo Juiz.

Aos leitores católicos gostaria de recomendar que não se sintam acuados a pregar vossa fé. Muitos católicos tem medo de discutir com protestantes porque pensam que esses conhecem muito mais a Bíblia que eles. Digo que não é bem assim, um bom católico, que frequente sempre a Santa Missa e mantém a prática de meditar sobre as leituras diárias, conhece a Bíblia tão bem quanto um protestante (embora nem sempre consiga citar capítulo e versículo). Indico que estudem a Bíblia, principalmente apoiados no catecismo da Igreja. Também indico que lidem com as diferentes denominações protestantes como se fossem coisas totalmente diferentes. Não pensem que a fé protestante é uma coisa só, pois não é. Não dá para enquadrá-la em uma só fé, mas em várias crenças que são muitas vezes opostas entre si. Evite generalizações, conheça realmente o que está criticando, pare de achar que protestantismo seja a mesma coisa que Edir Macedo, não é! Foque em conhecer a fé católica e em rebater os argumentos protestantes, seja de qual vertente for. A Verdade sempre vence!

Observações:

Obs. 1: Esse relato não é focado no momento em que me converti ao Cristianismo, mas no momento da minha conversão ao catolicismo. Sendo assim muitos livros e pensamentos dessa fase foram omitidos.

Obs. 2: Não sou teólogo, filósofo ou grande erudito. Não sou digno de tais títulos e conheço minhas limitações. Apenas busquei a Verdade e a encontrei.

Obs. 3: Cito em meu texto muitos alunos do professor Olavo de Carvalho, mas não o cito. Isso se deve ao fato dele ter perpassado todos os períodos, desde que conheci a fé protestante, até minha conversão ao catolicismo. Não o omiti por não ter importância na narrativa, mas por não consegui-lo encaixar na linha do tempo. A verdade é que o professor Olavo foi um dos primeiros a me deixar com a pulga atrás da orelha sobre o protestantismo e a me tirar da bolha em que vivia. Devo muito a ele e peço a Deus que o retribua por tudo que tem feito.

Bibliografia/ Indicações

Vencedor em Todas as Batalhas — Luiz Waldvogel

O Rasto de Sangue — J.M. Carroll

Cristianismo Puro e Simples — C.S. Lewis

Surpreendido pela Alegria — C.S. Lewis

A Linguagem de Deus — Francis Collins

Tudo pela Graça — C.H. Spurgeon

Diante da Porta Estreita — C.H. Spurgeon

Ensaios Céticos — Bertrand Russell

Patrística — Padres Apostólicos — Vol. 1

100 Biblical Arguments Against Sola Scriptura — Dave Armstrong

Santo Irineu, Coleção de Escritos, incluíndo o Contra as Heresias que foi citado no meu texto (livro eletrônico em inglês)

Todos os Caminhos Levam a Roma — Scott e Kimberly Hahn

História Eclesiástica- Eusebio de Cesareia

Ortodoxia — Chesterton

O Cânon das Escrituras — F.F. Bruce

Catecismo da Igreja Católica

Catholic Answers — Site em inglês, com rico conteúdo apologético católico

Site do apologista católico, ex-protestante, Steve Ray (em inglês)

Site do apologista católico, ex-protestante, Robert Sungenis (em inglês)

Site do apologista católica, ex-protestante, Dave Armstrong (em inglês)

Introdução à Patrística e à Patrologia — Curso do Rafael Brodbeck

Fábio Salgado de Carvalho — Perfil no Facebook com rico conteúdo

Fábio Salgado de Carvalho — Blog

Olavo de Carvalho — artigos sobre a Reforma Protestante

Terra da Cruz — Banda Católica

Instituto Cristandade — Instituto Conservador/ Católico em Presidente Prudente — SP

Bernardo Küster — Vídeo sobre as comemorações pelos 500 anos da Reforma Protestante.

Palavra Prudente, site do meu falecido sogro e hoje administrado pelo meu cunhado, Daniel Gardner

O Evangelho segundo Jesus — John MacArthur

O Evangelho segundo os Apóstolos — John MacArthur

João Carlos Fachini nasceu em 1988, reside em Presidente Prudente (SP), pertenceu à igreja Batista, converteu-se em 2018. Formado em ciências da computação e engenharia de software. E-mail para contato: joaocarlosfachini@gmail.com

 

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