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Sumário 1. O “Sola Scriptura” não é ensinado na Bíblia2. “Palavra de Deus”3. “Tradição” não é uma palavra indecente4. Jesus e Paulo aceitaram Tradições não bíblicas orais e escritas5. Concílio de Jerusalém6. Fariseus, saduceus e a Tradição oral extrabíblica7. Os judeus do Antigo Testamento não criam no “Sola Scriptura” / Necessidade de interpretação8. 2 Timóteo 3.16-17: a “prova textual” protestante9. Paulo, eventualmente, assume que a Tradição que lhe foi transmitida é infalível e autoritativa10. O “Sola Scriptura” é um posicionamento radicalmente circular


1. O “Sola Scriptura” não é ensinado na BíbliaA Escritura, certamente, é um “padrão de verdade” (nós concordamos inteiramente com os protestantes) e até mesmo o mais preeminente, mas não em um sentido de que ela exclua a autoridade permanente de uma autêntica Tradição e de uma Igreja. A Bíblia não ensina isso. Os católicos concordam com os protestantes que a Escritura é suficiente materialmente. Em outras palavras, cada doutrina verdadeira pode ser encontrada na Bíblia, mesmo que o seja implicitamente e indiretamente por dedução. Nenhuma passagem bíblica, entretanto, ensina que a Escritura é a autoridade formal ou a norma de fé para o cristão (suficiência formal) isoladamente da Igreja e da Tradição Apostólica. O “Sola Scriptura” não pode sequer ser deduzido de passagens implícitas. Os protestantes tentam construir um argumento para isto, mas (com todo o respeito), penso que o esforço está fadado ao fracasso. Nunca vi sucesso algum nessa empreitada, mesmo tendo discutido sobre a questão com protestantes por muitas e muitas vezes em 13 anos desde a minha conversão.

2. A “Palavra de Deus” refere-se ao ensino oral também“Palavra”, na Sagrada Escritura, muitas vezes, refere-se a um ensino oral proclamado por profetas ou por apóstolos. O que os profetas disseram era a Palavra de Deus independentemente de se os seus proferimentos foram registrados mais tarde como Escritura escrita. Assim, por exemplo, lemos em Jeremias 25.3,7-8 (NVI):

“Durante vinte e três anos a palavra do Senhor tem vindo a mim […] E eu a tenho anunciado a vocês, dia após dia […] Mas vocês não me deram ouvidos […], declara o Senhor. Portanto, assim diz o Senhor dos Exércitos: ‘Visto que vocês não ouviram as minhas palavras […]”

Esta foi a Palavra de Deus ou a Palavra do Senhor mesmo que ela não estive registrada por escrito ou não constasse posteriormente em uma Escritura canonizada. Ela tinha a mesma autoridade que um escrito enquanto proclamação que nunca foi reduzida à escrita. Isto era verdadeiro também para a pregação apostólica. Quando as frases Palavra de Deus ou Palavra do Senhor aparecem em Atos e nas epístolas, elas quase sempre se referem à pregação oral, não à Escritura. Por exemplo:

“[…] ao receberem de nossa parte a palavra de Deus, vocês a aceitaram, não como palavra de homens, mas conforme ela verdadeiramente é, como palavra de Deus […]” (1 Tessalonicenses 2.13).

Se compararmos esta passagem com outra, escrita para a mesma igreja, Paulo parece tomar a Tradição e a Palavra de Deus como sinônimos:

“[…] nós lhes ordenamos que se afastem de todo irmão que vive ociosamente e não conforme a tradição que vocês receberam de nós.” (2 Tessalonicenses 3.6).

3. “Tradição” não é uma palavra indecente
Os protestantes, muitas vezes, citam os versículos da Bíblia em que as tradições corruptas dos homens são condenadas (e. g. , Mt. 15.2-6; Mc. 7.8-13; Cl. 2.8). Obviamente, católicos concordam com isso. Não se trata, entretanto, da verdade completa. As Tradições apostólicas e verdadeiras também são aprovadas positivamente. Esta Tradições estão em total harmonia e consistência com a Escritura. Neste sentido, a Escrit.ura é a “juíza última” da Tradição, mas não no sentido de que ela descarte toda Tradição permanente e a autoridade da Igreja. Aqui estão alguns poucos versículos relevantes (TEB):

“Eu vos felicito por vos lembrardes de mim em toda ocasião e conservardes as tradições tais como eu vo-las transmiti.” (1 Coríntios 11.2).

“Assim, pois, irmãos, ficai inabaláveis e guardai firmemente as tradições que vos ensinamos, de viva voz ou por carta” (2 Tessalonicenses 2.15).

“Toma como norma as sãs palavras que de mim ouviste, na fé e no amor que estão em Cristo Jesus. Conserva o bom depósito pelo Espírito Santo que habita em nós.” (2 Timóteo 1.13-14).

“O que aprendeste de mim na presença de numerosas testemunhas, confia-o a homens fiéis, que, por sua vez, serão capazes de ensiná-lo a outros mais.” (2 Timóteo 2.2).

“Meus amigos, enquanto eu alimentava um vivo desejo de vos escrever a respeito da salvação que concerne a todos nós, vi-me forçado a fazê-lo, a fim de vos animar a lutar pela fé que foi definitivamente transmitida aos santos. (cf. Atos 2.42, que menciona o “ensinamento dos apóstolos”) (Judas 3).

4. Jesus e Paulo aceitaram Tradições não bíblicas orais e escritas
Os protestantes que defendem o “Sola Scriptura” alegarão que Jesus e Paulo aceitaram a autoridade do Antigo Testamento. Isto é verdade, mas também é verdade que eles apelaram a outras autoridades, externas à revelação escrita. Por exemplo:

A) A referência a “Ele será chamado Nazareno” não pode ser encontrada no Antigo Testamento, mas foi “dita pelos profetas” (Mateus 2.23). Então, uma profecia, que é considerada como sendo “Palavra de Deus”, foi transmitida oralmente em vez de ser registrada na Escritura.

B) Em Mateus 23.2-3, Jesus ensina-nos que os escribas e fariseus têm uma legítima autoridade permanente baseada na “cátedra de Moisés”, mas esta frase (ou idéia) não pode ser encontrada em qualquer lugar do Antigo Testamento. Ela é encontrada na (originalmente oral) “Mishnah”, em que uma espécie de “sucessão de ensinamento” de Moisés em diante é ensinada.

E agora dois exemplos do Apóstolo Paulo:

C) Em 1 Coríntios 10.4, São Paulo refere-se à rocha que “seguia” os judeus ao longo do deserto do Sinai. O Antigo Testamento afirma nada sobre tal movimento miraculoso nas passagens sobre Moisés golpeando a rocha para que ela produzisse água (Êxodo 17.1-7; Números 20.2-13); contudo, a tradição rabínica menciona-o.

D) “Como Janes e Jambres opuseram-se a Moisés” (2 Timóteo 3.8). Estes dois homens não podem ser encontrados na passagem correlata no Antigo Testamento (cf. Êx. 7:. 8ss) ou em qualquer outro lugar do Antigo Testamento.

5. Concílio de Jerusalém
No Concílio de Jerusalém (At. 15.6-30), vemos Pedro e Tiago falando com autoridade. Este Concílio profere um pronunciamento autoritativo (mencionando o Espírito Santo) que se tornou obrigatório para todo cristão:

“Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não impor a vocês nada além das seguintes exigências necessárias: Que se abstenham de comida sacrificada aos ídolos, do sangue, da carne de animais estrangulados e da imoralidade sexual. Vocês farão bem em evitar essas coisas.” (Atos 15.28-29).

No próximo capítulo, lemos que Paulo, Timóteo e Silas viajaram “pelas cidades” e a Escritura diz que eles 

“transmitiam as decisões tomadas pelos apóstolos e presbíteros em Jerusalém, para que fossem obedecidas.” (Atos 16.4).

Essa é a autoridade da Igreja. Eles, simplesmente, proclamaram o decreto como verdadeiro e autoritativo — com a sanção do próprio Espírito Santo! Então, vemos na Bíblia um exemplo do dom da infalibilidade que a Igreja Católica alegaria para si mesma quando está em assembléia em um Concílio.


6. Fariseus, saduceus e a Tradição oral extrabíblica
O Cristianismo foi derivado, de muitas maneiras, da tradição farisaica do Judaísmo. Os saduceus, por outro lado, eram muito mais heréticos. Eles rejeitavam a ressurreição futura e a alma, a vida após a morte, as recompensas e retribuições, demônios e anjos e a predestinação. Os saduceus eram os liberais teológicos do seu tempo. Os cristãos fariseus são mencionados em Atos 15.5 e Filipenses 3.5, mas a Bíblia nunca menciona cristãos saduceus. Os saduceus também rejeitaram todo ensinamento autoritativo oral e, essencialmente, criam no “Sola Scriptura”. Então, nem os (ortodoxos) judeus do Antigo Testamento e nem a Igreja primitiva eram guiados pelo princípio do “Sola Scriptura”. Os fariseus (apesar de suas corrupções e excessos) foram a principal tradição judaica e tanto Jesus como Paulo reconhecem isto.


7. Os judeus do Antigo Testamento não criam no “Sola Scriptura” / Necessidade de interpretação
Para dar dois exemplos do próprio Antigo Testamento:

A) Esdras 7.6,10: Esdras, um sacerdote e escriba, estudou a lei judaica e ensinou-a a Israel e a desobediência à sua autoridade significava pena de prisão, exílio, perda de bens e até mesmo a morte (7.25-26).

B) Neemias 8.1-8: Esdras lê a Lei de Moisés para o povo em Jerusalém (8.3). No verso 7, encontramos treze levitas que assistiram a Esdras e que ajudaram o povo a compreender a Lei. Muito antes, encontramos levitas exercendo a mesma função (2 Cr. 17.8-9). Em Neemias 8.8: “Liam no livro da Lei de Deus, de maneira distinta, explicando o sentido dela, e faziam compreender o que era lido.”.

Desse modo, o povo, de fato, compreendia a Lei (Ne. 8.12), mas não sem muita assistência —não meramente a ouvindo. Da mesma forma, a Bíblia não é totalmente clara em si mesma, mas requer ajuda de professores que estão mais familiarizados com os estilos bíblicos, com o Hebraico, com os antecedentes, com o contexto, com a exegese, com a referência cruzada entre os livros, com os princípios hermenêuticos, com as línguas originais etc. . O Antigo Testamento, então, ensina-nos acerca de uma Tradição permanente e precisa de intérpretes autoritativos, assim como o Novo Testamento:

C) “[…] um eunuco etíope […] sentado em seu carro, lia o profeta Isaías […]. Filipe correu para lá, ouviu o eunuco ler o profeta Isaías e lhe disse: ‘Será que compreendes verdadeiramente o que estás lendo?’. ‘E como poderia eu compreender, respondeu ele, se não tenho guia?'” (Atos 8.27-28, 30-31).

D) “[…] nenhuma profecia da Escritura é objeto de interpretação pessoal” (2 Pedro 1.20). 

E) “[…] Paulo, nosso irmão e amigo, vos escreveu consoante a sabedoria que lhe foi dada. […] nelas [nas cartas de Paulo] se encontram passagens difíceis, cujo sentido pessoas ignorantes e sem formação deturpam, como, também fazem com as demais Escrituras, para a própria perdição.” (2 Pedro 3.15-16).

F) “Por meio de numerosas parábolas como estas, ele lhes anunciava a Palavra, à medida que eram capazes de compreendê-la. Não lhes falava a não ser em parábolas, mas, em particular, explicava tudo a seus discípulos.” (Marcos 4.33-34).

8. 2 Timóteo 3.16-17: a “prova textual” protestante

“Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para ensinar, refutar, corrigir, educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito, qualificado para qualquer obra boa.” (TEB)

Esta passagem não ensina a suficiência formal, que exclui um permanente e autoritativo papel para a Tradição e a Igreja. Os protestantes extrapolam para o texto algo que não está nele. Se olharmos o contexto geral dessa passagem, em 2 Timóteo apenas, Paulo faz referência à Tradição oral três vezes (1.13-14, 2.2, 3.14). Para fazermos uso de uma analogia, examinemos uma passagem bastante similar, Efésios 4.11-15:

“E ele designou alguns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres, com o fim de preparar os santos para a obra do ministério, para que o corpo de Cristo seja edificado, até que todos alcancemos a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, e cheguemos à maturidade, atingindo a medida da plenitude de Cristo. O propósito é que não sejamos mais como crianças, levados de um lado para outro pelas ondas, nem jogados para cá e para lá por todo vento de doutrina e pela astúcia e esperteza de homens que induzem ao erro. Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo.”.

Se 2 Timóteo 3 prova a suficiência da Escritura, então, por analogia, Efésios 4, semelhantemente, provaria a suficiência dos pastores e mestres para a produção da perfeição cristã. Em Efésios 4.11-15, o crente cristão é equipado, edificado e trazido à unidade e à idade madura, e até mesmo preservado da confusão doutrinária por meio da função de ensino da Igreja. Esta é uma declaração muito mais forte de aperfeiçoamento dos Santos que aquela de 2 Timóteo 3.16-17, ainda que não haja qualquer menção da Escritura.
Então, se todos os elementos não escriturísticos são exclusos em 2 Timóteo, por analogia, a Escritura, logicamente, teria de estar exclusa em Efésios. É muito mais razoável reconhecer que a ausência de um ou mais elementos na passagem não significa que eles não existem. A Igreja e a Escritura são ambas igualmente necessárias e importantes para o ensino. E, obviamente, esta é a visão católica.


9. Paulo, eventualmente, assume que a Tradição que lhe foi transmitida é infalível e autoritativa
Paulo não estava assumindo que ele poderia ordenar os seus seguidores a aderir a uma doutrina equivocada. Ele escreve por exemplo:

“Se alguém desobedecer ao que dizemos nesta carta, marquem-no e não se associem com ele, para que se sinta envergonhado” (2 Ts. 3.14)

“Eu vos exorto, irmãos, a vos precaverdes contra os que suscitam divisões e escândalos, afastando-se do ensinamento que recebestes; afastai-vos deles.” (Rm. 16.17)

Paulo não escreveu:

“[…] afastando-se do bastante, em grande parte, amplamente, verdadeiro, mas não infalível, ensinamento que recebestes.”.

10. O “Sola Scriptura” é um posicionamento radicalmente circular
Quando tudo já está dito e feito, os protestantes aceitam o “Sola Scriptura” como sua regra de fé recorrendo à Bíblia. Se a eles fosse perguntado por que alguém deveria acreditar no ensino da sua denominação em particular em detrimento de outro, cada um apelaria à “clareza do ensino da Bíblia” e, muitas vezes, agiriam como se não houvesse qualquer tradição que guiasse a sua própria interpretação.
Isso se assemelha a pessoas que estivessem em lados diferentes de um debate constitucional em que ambas dissessem: “Bem, nós seguimos aquilo que a Constituição afirma, mas vocês não.”. A Constituição dos Estados Unidos, assim como a Bíblia, não é suficiente em si e por si mesma para resolver querelas sobre diferentes interpretações. Juízes e cortes são necessários e os seus decretos são legalmente autoritativos. As decisões da Suprema Corte não podem ser anuladas, a não ser por decisões futuras ou por emendas constitucionais. Em qualquer caso, existe sempre um parecer final que resolve a questão.
O Protestantismo, entretanto, prescinde disso porque ele apela a um princípio logicamente autodestrutivo e a um livro (que deve sempre ser interpretado por seres humanos). Obviamente (dadas as divisões no Protestantismo), simplesmente, “ir para a Bíblia” não tem funcionado. No final, uma pessoa não tem nenhuma garantia ou certeza no seu sistema protestante. Eles podem apenas, por si mesmos, “ir à Bíblia” e talvez retornar com outra versão doutrinária de alguma doutrina posta em questão para adicionar à sua lista. Ou você acredita que há uma verdade em qualquer disputa teológica dada (seja ela qual for) ou você adota uma posição relativista e indiferente em que contradições são aceitas ou em que a doutrina é tão “secundária” que não importa.
A Bíblia, entretanto, não ensina que existam categorias inteiras de doutrinas que são “secundárias” e que os cristãos podem, livremente, e alegremente, discordar dessa forma. O denominacionalismo e as divisões são vigorosamente condenadas. A única conclusão a que podemos chegar a partir da Bíblia é que aquilo que chamamos de “o tripé que sustenta um banco” — Bíblia, Igreja e Tradição — é aquilo que é necessário para que cheguemos à verdade. Se você bater em qualquer uma das pernas de um banco de três pernas, ele colapsa.


[Tradução: Fábio Salgado de Carvalho. Texto original: http://www.patheos.com/blogs/davearmstrong/2015/11/quick-ten-step-refutation-of-sola-scriptura-2.html]

Publicado em português em http://fabiosalgado.blogspot.com/2016/10/uma-rapida-refutacao-do-sola-scriptura.html

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