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Uma Batista e um Católico: a caminhada para a unificação da fé 

Sou uma ex-protestante. Criada em berço batista, cresci e amadureci nesta denominação. Foi lá que conheci Jesus, o aceitei e aprendi a viver observando seus mandamentos. Entretanto, nunca havia refletido sobre os fundamentos da minha fé, isto é, por qual motivo pertenço à igreja batista e não à Assembleia de Deus.

Nunca havia me perguntando por que cria na Bíblia e como foi formada. Havia devorado as Sagradas Escrituras não uma, mas umas três vezes: de cabo a rabo, de Gênesis a Apocalipse. Estudei as cartas da Bíblia, mas nunca a história da própria Bíblia. Frequentei a Escola Bíblica Dominical, aprendi um pouco da teologia e doutrina cristã, mas nunca havia me interessado em saber como elas surgiram. Por exemplo: a Bíblia não cita diretamente a Santíssima Trindade. Por que, então, acreditava na Santíssima Trindade? Quem eram as pessoas que interpretavam aquilo no que eu devia acreditar? Por que acreditava nas cartas do Novo Testamento? Quem as colocou lá? Por que eu era protestante? Quem era Lutero? Eu sabia o meio, mas não o início da minha fé.  Eu acreditava única e exclusivamente na Bíblia, mesmo se não soubesse quem escolheu os livros que lá estão, o porquê deles lá estarem, quem os escreveu ou quando foram escritos. 

O que aconteceu com a Igreja depois que Jesus voltou para o Reino dos Céus? O que aconteceu depois que os apóstolos morreram? Como a Igreja sobreviveu ao longo de dois mil anos? Qual a sua história? Como, creio eu, a maior parte dos protestantes, não pensa muito nestas coisas. 

Acreditava em Deus porque sentia Deus; acreditava na Bíblia porque tinha sido ensinada a acreditar. Sentia que devia acreditar, pois, sendo batista, que achava que minha denominação era mais parecida com a igreja primitiva (do Novo Testamento). Detalhe: mesmo sem nunca ter ido às outras denominações. Acreditava ainda que não tinha importância as centenas de doutrinas diferenciadas entre as igrejas protestantes, porque isso era coisa do homem, e o que importava é que todas acreditavam em Jesus como Senhor e Salvador. Só isso bastava. 

Em 35 anos de vida cristã pouca ou nada sabia sobre a história do Cristianismo. 

Como pode ver, minha fé era bastante sentimental e subjetiva: Eu creio porque eu sinto. Meu relacionamento com Deus era todo baseado: nas emoções, nas profecias que ouvia, nos gritos do púlpito. Eu era uma protestante feliz: feliz em minha comunidade, feliz no meu ministério, feliz em minha ignorância.

 Até que, em junho de 2010, conheci Marcelo. Católico Apostólico Romano. Hoje, meu marido. A partir daí foram 8 anos de uma batalha espiritual intensa em que eu queria convertê-lo ao protestantismo, afinal, a Igreja Católica era a besta do Apocalipse e o Papa o anticristo. Mas a última palavra era de Deus. E foi Ele quem realmente deu a última palavra.

Minha alegre e tranquila vida protestante começou a mudar depois que eu casei com Marcelo em dezembro de 2011. Durante o namoro Marcelo era mais um católico de IBGE. Na minha cabeça seria fácil convertê-lo ao protestantismo. Nos casamos com 1 ano e 3 meses de namoro. E, logo no início de nosso casamento, comecei a travar a minha luta pessoal para a conversão de meu marido. Era oração e joelho no chão. Consegui levá-lo à igreja, e ele até trabalhou no ministério de Educação Financeira Cristã onde lecionava sobre finanças a partir da ótica cristã. Isso aconteceu, e eu estava muito feliz, até que… ele se converteu!

  Do dia para a noite meu marido resolveu viver o cristianismo em espírito e em verdade, só que dentro da Igreja que ele entendia ser a verdadeira Igreja de Cristo, a Igreja Católica. Entrei em desespero. Junto com a sua conversão à Igreja Católica, vieram as discussões. As discussões viraram embates teológicos, doutrinários e históricos. Ele começou a estudar profundamente a história da igreja, da Bíblia e a doutrina católica. E eu só tinha a Bíblia para refutar todas as suas afirmações. 

Comecei a perder as discussões: não sabia responder por que era Batista, por que cria na Bíblia, o que aconteceu à Igreja depois que Cristo retornou ao Reino dos Céus, quem era Lutero, qual a sua obra, porque eu odiava a Igreja Católica… Meu marido tinha sempre respostas as essas questões. E respondia meus questionamentos sobre idolatria, Eucaristia, imagens, a Virgem Maria, intercessão dos Santos com tanta propriedade que ficava sem respostas. 

Estava dada a largada. Um dos dois teria de se converter, afinal sabíamos que não queríamos viver toda uma vida conjugal sem comunhão espiritual e doutrinal, e se continuássemos daquela forma nosso casamento correria sérios riscos. Casamento é viver como uma só carne. Não há uma só carne, se os dois caminham em direções opostas.

Não era escancarado, mas estávamos em uma batalha espiritual. Eu cria que meu marido estava no erro doutrinário, e ele cria que eu estava no erro. Eu orava pela conversão de meu marido, e ele orava pela minha conversão. 

Mesmo perdendo as argumentações teológicas e doutrinárias acerca da fé cristã, minha ignorância sobre a doutrina católica, a história do cristianismo e da Bíblia, somadas a completa rejeição que aprendi a sentir contra a Igreja Católicas nas Escolas Bíblicas Dominicais, não me permitiam curva-me as verdades reveladas em cada discussão. Marcelo sabia que só poderia me vencer, se as armas que usasse não fossem humanas, mas contasse com todo o exército de santos, que se chama Igreja Triunfante, para batalhar junto com ele, nesta que era uma guerra de vida ou morte, onde o nosso casamento era o troféu da vitória.

Como sou estudante por natureza, não poderia simplesmente dizer: Não acredito no que você me diz. Pois tinha certeza de que estava certa de minhas objeções. Deus sabia qual era o caminho para a minha conversão, e Marcelo tinha finalmente usado a arma mais poderosa que poderia: passou a pedir a intercessão da Santíssima Virgem Maria em favor de minha conversão.

Como precisava ter certeza de que estava certa e ele errado, resolvi estudar a história da Bíblia. Suas argumentações sobre a origem do Novo Testamento despertaram o desejo de conhecer mais sobre Escritura Sagrada, aquela em que cria com toda minha alma e coração.

Descobri um curso sobre história da Bíblia no Youtube, com um historiador judeu! Ótimo, assim não haveria narrativas favoráveis ao protestantismo ou catolicismo. Qual não foi minha grande surpresa: ao escutar falar de Eusébio de Cesaréia, e como ele narra o processo de definição do cânon do Novo Testamento, no seu livro História Eclesiástica. Este era um livro que tínhamos em casa, pois o Marcelo estava começando a ler os livros da Patrística. Neste momento, começou meu caminho de volta para casa.

Que período conturbado para mim. Estudar a história das Sagradas Escrituras era como levar uma facada no coração a cada linha escrita. Como assim cada comunidade cristã tinha seu próprio cânon sagrado? Que livros eram aqueles que nunca tinha ouvido falar? Apocalipse de Pedro? O Pastor de Hermas? Carta de Barnabé? Doutrina dos apóstolos? Evangelho segundo Hebreus? Todos esses livros fizeram parte dos diversos cânon sagrados das comunidades cristãs primitivas.

O cânon final do Novo Testamento foi definido pelo corpo de bispos e sacerdotes – estes eram reconhecidos como verdadeiros doutores da fé e legítimos pastores do Povo de Deus, a hierarquia Católica (século I) –, ao longo de séculos de estudo, analisando – os livros que viriam a compor o Novo Testamento – a autenticidade e inspiração dos escritos, o estilo de escrita e narração, o pensamento e a doutrina, com a Tradição Oral (o que era Tradição Oral? Eu nunca tinha ouvido falar!) passada pelos apóstolos! A Tradição foi usada para definir quais livros eram heréticos, quais não podiam ser considerados doutrinários ou inspirados; Em resumo: o que usamos hoje como Novo Testamento é resultado de mais de 300 anos de intensos debates, estudos e definições feitas pela Igreja Católica, usando a Tradição.

Surgiu a pergunta: O que é Tradição Oral? Que raios era isto? O livro de Eusébio de Cesaréia – História Eclesiástica –, escrito por volta do ano 315-316 d.C, que narra estes acontecimentos e outros momentos da igreja primitiva, se tornou meu livro de cabeceira. Tinha sido dada a largada ao meu processo de conversão a Igreja Católica!

Uma conversão nunca é somente fruto de um convencimento intelectual. No meu caso, o convencimento intelectual foi uma grande e enorme mola propulsora das mudanças que começavam a acontecer em minha vida espiritual. Mas sempre há um momento, ou uma série de pequenos momentos, onde o sobrenatural entra em ação. Comigo não seria diferente. Junto com Eusébio de Cesaréia e o meu entendimento dos acontecimentos da Igreja primitiva, vieram muitos períodos de oração. Era quando era preciso adentrar no meu Castelo Interior, em minha própria alma, e orar. Deus através de Seu Espírito Santo, começou a soprar alguns ventos de direção: levou-me até Scott Hahn e seu livro Todos os caminhos levam a Roma. Li todo o livro e a história de conversão em uma noite.

Ia à missa esporadicamente com meu marido para satisfazê-lo e ele não recusava ir à minha igreja. Numa quarta-feira de cinzas, fui à missa e ali aconteceu uma transformação em minha vida. De repente a missa ganhou todo um novo significado, e em cada atitude do padre, o Espírito Santo falava comigo. Cada objeto sagrado, cada leitura, o incenso, as cinzas, a Eucaristia, absolutamente tudo, de repente fazia sentido, o Espírito soprava palavras em meu ouvido, as lágrimas caiam incessantemente… Você já chorou como criança em uma missa? Eu achava que era impossível!

Eu ainda não estava convertida. Mas o processo com certeza já tinha começado, porque as Verdades que estava descobrindo seriam impossíveis de serem esquecidas ou rejeitadas. A Verdade liberta, e depois de libertado, quem quer voltar a ser escravo?

Após a quarta-feira de cinzas, em fevereiro de 2018, comecei a minha busca pela Verdade. Scott Hahn abriu as portas junto com Eusébio de Cesaréia, agora buscaria os Pais da Igreja para começar a entender a teologia católica. 

É aquela história: quando queremos aprender algo, precisamos começar do início. Os Pais da Igreja foram os primeiros cristãos logo após os apóstolos a desenvolverem a fé, a teologia e combateram as heresias. Descobri a Patrística. Eu não fazia ideia de que existiam documentos, cartas, livros escritos pelos discípulos dos apóstolos, e por seus sucessores que descreviam, inclusive, os acontecimentos da época, dos primeiros oito séculos da igreja cristã. 

O que eu aprendi e aprendo com eles mudou a forma como interpreto as Sagradas Escrituras, mudou minha forma de me relacionar com Deus, me trouxe toda uma nova espiritualidade tão mais rica, mais completa, mais clara, objetiva, racional, iluminada. A busca pelo conhecimento mudou a minha vida espiritual. E nunca aquele versículo disse tanto para mim: e conhecereis a Verdade e ela vos libertará. 

Havia, finalmente, me convertido à Igreja Católica. Há dois anos sou uma estudiosa apaixonada da Patrística e compartilho minhas descobertas no meu instagram: @prisdequeiroz.

Depois de minha conversão continuei meus estudos não apenas da Patrística, mas fiz a Escola da Doutrina Católica da Comunidade Resgate em Juiz de Fora, que dura um ano, e depois Escola para Educadores na mesma comunidade que estuda a História da Igreja. Matriculei-me no site do Padre Paulo Ricardo, onde fiz três cursos: História da Igreja Antiga, História da Igreja Medieval e História da Igreja Moderna, além dos cursos: Lutero e o Mundo Moderno e Por que não sou protestante. Até hoje sigo estudando a rica história da Igreja Católica, seus santos e mártires, sua teologia e doutrina. Sou mais cristã do que nunca fui em toda minha vida. Mais católica do que jamais imaginei.

O conhecimento está à disposição de todos nós. Deus está a um passo de quem O busca. A Verdade está a poucos metros de quem quer alcançá-la. Não tenha vergonha de se dar o benefício da dúvida. Busque a Verdade e Deus lhe guiará. A Verdade não é relativa, mas absoluta. Se a procurares ela se revelará. 

Deus te abençoe.

 

Priscila de Queiroz

Priscila de Queiroz

Priscila de Queiroz

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