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Na sua pregação apostólica, São Paulo lidou com uma problemática recorrente: a gratuidade da salvação, tanto para judeus quanto para gregos. Nos últimos anos, vimos uma grande leva de fiéis deixarem a Igreja Católica para se juntarem a comunidades protestantes – o número de católicos no censo do IBGE caiu de 83%(1991) para 68%(2009), e olhe lá se já não for menos que 50% hoje. O que é surpreendente para muitos, inclusive católicos, é que existam pessoas que estão fazendo o caminho inverso. 

O crescimento das denominações protestantes no Brasil foi algo espantoso, e alguns de nós aqui no Apostolado viram isso de perto. Eu, que nasci em 2002, cresci ouvindo histórias e mais histórias de ex-católicos contando sua conversão. Muitas vezes, pessoas que não viviam a fé, mas acharam um bode expiatório no seu passado para culpar. Isso intensificou o anticatolicismo desse meio no Brasil, que já não era pequeno, e agora é pior.

Eu lembro de uma ocasião onde cheguei na igreja e  fiz minha oração inicial antes do culto, algo rotineiro, e por motivo nenhum, pedi a Deus que crescesse o número de evangélicos no Brasil em detrimento dos católicos. Não lembro bem quando, mas vi uma notícia da época com a seguinte manchete: aumento de evangélicos no Brasil preocupa Vaticano.

Como já falamos outras vezes, conversão é algo que demanda humildade. Ou seja, não é porque você é convertido que virou o salgado premiado do pacote. Nem por isso, você é melhor do que o católico da sua paróquia que, mesmo sem uma formação tão sólida quanto a sua (ou pelo menos, a que você acha que já é sólida). “Esta é a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo, para todos os fiéis – pois não há distinção” (Rm 3,22). 

Eu me recordo de uma conversa, com alguém  que me auxiliou muito na conversão – eu tinha acabado de tomar a decisão de ser católico, e já ousava dizer: “ah, é muito melhor ser convertido do que ser católico de berço!” – a resposta dele foi a melhor possível, uma que eu nunca vou esquecer: “vocês convertidos podem nos dar uma lição de zelo, mas nós podemos dar a vocês uma lição de perseverança.”

Isso corrobora com as palavras de Paulo em Romanos: “Em que, então, se avantaja o judeu? Ou qual é a utilidade da circuncisão? Muita, em todos os aspectos. Principalmente porque lhes foram confiados os oráculos de Deus” (3,1-2). Os judeus foram os primeiros a receber a Aliança e a adoção, além das promessas (Rm 9,4). Posteriormente, os gregos (ou gentios) foram enxertados na videira (Rm 11,17). Se trocarmos “judeus” por “católicos de berço” e “gregos” por “convertidos”, teremos a mesma opinião que o meu amigo compartilhou.

Isso me faz pensar em uma coisa: como foi para o católico que honrou o seu batismo ver tantas pessoas – dentre amigos, parentes, colegas de trabalho, cônjuges, filhos, netos, etc. – deixarem a fé católica para se juntar ao protestantismo? Com certeza, para nós que somos ex-protestantes, a notícia de que alguém deixou a Igreja Católica é algo muito doloroso e chato de se receber – provavelmente alguns já ouviram um caso desses depois que se converteram, e sabem que a sensação é de engasgar uma raiva gigantesca. 

Agora, imaginem como foi para o judeu que honrou a circuncisão – os Profetas, por exemplo – ver todos os seus compatriotas se desviando da Aliança e do amor de Deus? Elias se indignou: “Consumo-me de zelo pelo Senhor, Deus dos exércitos” (IRs 19,14). Jeremias sofreu adversidades tremendas: “Tornei-me escárnio do meu povo, objeto constante de suas canções; a paz foi roubada de minha alma, nem sei mais o que é felicidade” (Lm 3,14.17).

Esses exemplos bíblicos podem nos dar uma noção do que foi para o católico fiel testemunhar tudo isso. Isso vai desde padres que foram ordenados há mais de 20 anos atrás até as senhorinhas do Apostolado da Oração. Pessoas que, muitas vezes, julgamos mal por aparentarem (ao nosso olhar soberbo) ter uma formação menor que a nossa, mas que foram fiel à fé quando muitos não foram.

A Providência Divina, no entanto, quis por meio disso suscitar um espírito de missão profética – que partilhamos em Nosso Senhor a partir do Batismo (CIC 1268): a coragem de testemunhar com a vida e com as palavras que muitos estão tomando uma direção errada; coragem de desfazer o abandono em massa da fé por parte de muitos católicos nos últimos 30 anos, e dizer que a Igreja não é o espantalho que dizem ser. E não só dizer, como também viver a fé da Igreja.

Quero deixar dois recados em especial aos protestantes que, porventura, possam estar lendo esse texto. O primeiro é: se atentem para a realidade de vocês. Muitos protestantes da faixa etária de 30 anos para baixo são os filhos dos que se converteram entre 1991 e 2009. Dessa segunda geração de protestantes, uma parte acabou por abandonar o cristianismo e partiu para o agnosticismo ou ateísmo. 

Ter muitos fiéis novos é uma delícia, mas é uma coisa muito difícil de se administrar também. Eu rezo para que vocês consigam, afinal de contas são os bons protestantes que se tornam católicos (Scott Hahn). Eu indico ler este texto aqui.

 

O segundo recado é: provavelmente vocês já ouviram testemunhos de ex-católicos nas suas denominações. Prestem atenção, e vocês vão perceber que 90% desses testemunhos são de católicos de IBGE, ou seja, pessoas que se baseiam numa experiência mal-vivida de uma fé que eles nem conhecem, mas ainda se atrevem a criticar com unhas e dentes.

Façam o exercício de conhecerem a Igreja como ela é, ouvindo pessoas que se esforçam para ser bons católicos. Como diz o Padre Paulo Ricardo: ninguém estuda arquitetura analisando os prédios que caíram. Já deixo o convite para conhecerem os demais artigos do blog, os testemunhos e os vídeos do nosso canal no YouTube.

 

Para os católicos, mas também a todos os que estão lendo, deixo duas recomendações: o testemunho do Dr. Gavin Ashenden, que deixou a Igreja Anglicana recentemente por conta de vários problemas conhecidos nessa Comunhão; e este vídeo (está em inglês) do Steve Ray sobre a evangelização diante de um mundo neopagão – dita “nova evangelização”. 

No mais, fiquemos com esses versos que provavelmente passaram pelos nossos olhos muitas vezes quando éramos protestantes, para tentar provar algumas doutrinas. Mas dessa vez, eu te convido a ler com calma, refletindo no tema que meditamos.

Em que, então, se avantaja o judeu? Ou qual é a utilidade da circuncisão? Muita, em todos os aspectos. Principalmente porque lhes foram confiados os oráculos de Deus. Mas, agora, sem o concurso da lei, manifestou-se a justiça de Deus, atestada pela Lei e pelos profetas. Esta é a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo, para todos os fiéis (pois não há distinção; com efeito, todos pecaram e todos estão privados da glória de Deus), e são justificados gratuitamente por sua graça; tal é a obra da redenção, realizada em Jesus Cristo. (Rm 3,1-2.21-24) – Palavra do Senhor.

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