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Pentecostes continua!

(Semana da Ascensão – 29 mai, 2020)

Chegamos ao fim do tempo pascal, e encerramos esse ciclo de sete semanas no domingo de Pentecostes, o glorioso dia onde o Espírito “por Ele [Cristo], prometido a nós” (Veni Creator Spiritus) vem para proclamar os feitos de Deus, como bem aconteceu naquele dia: “ouvimo-los publicarem […] as maravilhas de Deus!” (At 2,11). 


    Sem dúvida, é um dia muito especial para todo cristão, pois desde aquele dia, entramos nos “nos últimos tempos, no tempo da Igreja, no Reino já herdado mas ainda não consumado: “nós vimos a verdadeira Luz, recebemos o Espírito celeste, encontramos a verdadeira fé: adoramos a Trindade indivisível, porque foi Ela que nos salvou” (Catecismo da Igreja Católica, §732).


    No entanto, não há como desvencilhar a ação do Espírito da ação da Igreja. Foi a ela que o Espírito foi prometido, quando Cristo se entregou por Ela (Ef 5,25), e foi ao Pai para nos enviar o Paráclito (Jo 16,7). A Igreja, que é Seu Corpo, é nutrida pelo Espírito assim como um esposo cuida de sua amada (Ef 5,29-30):


    “Assim, a missão da Igreja não se acrescenta à de Cristo e do Espírito Santo, mas é o sacramento dela: […] uma vez que o Espírito Santo é a unção de Cristo, é Cristo, a Cabeça do corpo, quem O derrama nos seus membros para os alimentar, os curar, os organizar nas suas mútuas funções, os vivificar, os enviar a dar testemunho, os associar à sua oferta ao Pai e à sua intercessão pelo mundo inteiro. […]  (CIC, §738-739).


Eu gostaria de chamar atenção a um termo: sacramento – o Catecismo afirma que a Igreja é sacramento (CIC, §774) – sacramentum, em latim. Comparando ao grego mysterion, que é traduzido em dois termos latinos (sacramentum e mysterium), o primeiro é o sinal e instrumento (§1111) – um sacramento, de uma realidade oculta sobre a salvação – um mistério. O próprio Paulo fala disso em Efésios 5 como um “grande mistério” (v. 32), referindo-se à Igreja. 


Sendo assim, a Igreja é o sacramento do mistério de Cristo, precisamente através do Espírito Santo, e é esse Espírito que nos faz “”o Templo de Deus vivo, como o próprio Deus disse: Eu habitarei e andarei entre eles, e serei o seu Deus e eles serão o meu povo (Lv 26,11s)” (II Cor 6,16):


“De fato, foi à própria Igreja que o dom de Deus foi confiado […]. Nela foi depositada a comunhão com Cristo, isto é, o Espírito Santo […]. Porque onde está a Igreja, aí está também o Espírito de Deus; e onde está o Espírito de Deus, aí está a Igreja e toda a graça” (Santo Irineu de Lião).


Até mesmo quando Jesus fala do Seu Reino, ele fala do Espírito Santo: quando os apóstolos perguntam se havia chegado o momento de restabelecer a monarquia da casa de Davi, Jesus responde: “não vos pertence a vós saber os tempos nem os momentos que o Pai fixou em seu poder, mas descerá sobre vós o Espírito Santo e vos dará força; e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria e até os confins do mundo”.


No entanto, nesse clima todo de Pentecostes, surge uma problemática: a mesma Igreja que foi edificada em Pentecostes ainda está viva, e as palavras do próprio Cristo não deixam margem de erro: “descerá sobre vós o Espírito Santo e vos dará força; e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria e até os confins do mundo” (Atos 1,8). Mateus relata: “Ide, pois, e ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo” (28,19-20) – essa missão começou em Pentecostes! Então, o que houve de lá para cá?

Pentecostes ou Grande Apostasia?

Todo mundo já cansou de debater se o protestantismo tem nove, trinta ou quarenta mil divisões, ou se é apenas um conglomerado de alguns dois a três ramos doutrinários com divergências secundárias. Independemente disso, há algo que todo protestante concorda: a Igreja Católica (ou mais especificamente, a Igreja de Roma) se desviou. Alguns até afirmam que a Igreja de Roma foi quem cismou da Igreja católica (com inicial minúscula, em seu significado genérico). E todos nós, que somos ex-protestantes, nos expressamos assim um dia. Até mesmo Newman, o nosso padroeiro:


    “Considerando os grandiosos dons e as fortes reivindicações da Igreja de Roma e suas dependências da nossa admiração, reverência, amor e gratidão, como poderíamos suportá-la, como fazemos; como poderíamos nos abster de sermos comovidos em ternura, correndo para a comunhão com ela, senão pelas palavras da Verdade, que preferimos ao mundo inteiro? ‘Quem ama pai ou mãe mais do que Mim, não é digno de Mim’. Como poderíamos aprender a ser severos e executar o julgamento, a não ser pela advertência de Moisés contra qualquer um que pregue novos deuses – mesmo que sejam mestres incubido dos dons divinos; e o anátema de São Paulo contra os que pregam novas doutrinas, mesmo que sejam anjos e apóstolos?” (Tracts for the Times)


    Pensando bem, Newman foi até educado… a nível de Brasil, o que ouvimos é: “a grande prostituta”, “a grande Babilônia”, “besta do Apocalipse”, e outras objeções fundamentalistas, em sua grande maioria. O próprio Newman admitiu em uma das suas últimas obras enquanto anglicano, que essa objeção era o obstáculo que o impedia de se unir à comunhão com Roma. E esse também foi o nosso obstáculo: crescemos ouvindo que a Igreja Católica era idólatra e desprovida de bases bíblicas. 


Temos inúmeros testemunhos nesse site, e você ver em cada um deles como desmontamos essas objeções. Newman também chegou à conclusão que esse obstáculo não possuía fundamento sólido, e escreveu um livro sobre isso – An Essay on the Development of Christian Doctrine – (lit., “Um Ensaio sobre o Desenvolvimento da Doutrina Cristã”) – apenas onze anos depois de ter escrito o tratado onde expressou palavras aparentemente tão concisas contra a Igreja de Roma! 


Isso nos faz voltar o olhar para Pentecostes. Há alguns anos atrás, o canal Dois Dedos de Teologia se envolveu numa polêmica tentando defender a Sola Scriptura, e um dos argumentos que ele rebateu foi “a falácia do romanismo retroativo” (e você pode conferir o argumento dele aqui), onde os textos patrísticos e até mesmo o período bíblico como se fossem atos de uma instituição com a mesma estrutura da Igreja Católica Romana como conhecemos nos dias atuais. E eu sou obrigado a concordar com ele, e Newman também concordaria, que esse argumento não presta. Mas o mesmo argumento é usado pelos protestantes.


Um amigo meu, que é ortodoxo russo, escreveu há uns tempos atrás contra o seguinte argumento: “os primeiros cristãos eram apenas cristãos, não se diziam católicos ou ortodoxos”, e ele nem precisou ir além da própria Bíblia para desmontar essa falácia de um protestantismo moderno retroativo: em Atos 11, é descrito como a Igreja se estabeleceu em Antioquia. E somente lá, os cristãos receberam esse nome. Até então, eram chamados de “nazarenos”, e eram considerados um seita do judaísmo (Atos 24,5; 28,22). 


Essa afirmação busca desmontar um argumento com uma conversa fiada – ou como diria Lewis, essa afirmação é muito bonita, só não tem utilidade (Cristianismo Puro e Simples). E o meu amigo se expressa de um modo bem parecido ao de Newman: 


Embora a fé seja una e inalterada, não havendo diferenças substanciais criadas pelo tempo, a expressão dela depende da necessidade. Conforme surgiam seitas as mais bizarras, foram adotadas, não mais no ‘tempo bíblico’, as palavras gregas ‘católico’ (‘de acordo com o todo’), em oposição ao ‘herético’ (‘aquele que escolheu estar contra o todo’) e ‘ortodoxo’ (‘de reto ensino’ ou ‘de reta glória’) em oposição a ‘heterodoxo’ (‘de diferente ensino’).” Nesses sentidos, os santos Inácio de Antioquia e Agostinho de Hipona falam da autoridade da Igreja Católica, mas não necessariamente eles estão desconexos da Igreja Católica como conhecemos!


Newman, ao explorar a ideia paradoxal de que para uma ideia permanecer verdadeira em si, ela deve ser capaz de mudar e desenvolver-se – em outras palavras, com o passar do tempo, a Igreja desenvolveu sua expressão para manter seguro o depósito da fé (depositum fidei), adicionando coisas que, obviamente, não vão se encontrar na Bíblia, por não fazerem parte do mesmo período histórico.


Exemplos disso: Trindade – séc. II; bispo – em seu sentido monárquico, também no séc. II; Bíblia – séc. II; Papa – séc. IV; consubstancial – séc. IV. E a lista só aumenta. Até mesmo protestante – séc. XVI! Tudo isso não está na Bíblia. Mesmo o cânon bíblico só foi definido no final do quarto século!


O mesmo acontece com muitas outras estruturas primitivas da Igreja: as igrejas domésticas, o culto e a liturgia, a hierarquia, e como já disse, o próprio Cânon das Escrituras – tudo isso se desenvolveu ao longo de 2000 anos, e ainda nem chegamos no final da história! Tudo isso está documentado, e graças ao acesso da internet, qualquer um pode estudar sobre – foi o que nós fizemos: encontramos uma fonte de riquezas divinas na tela dos nossos aparelhos eletrônicos!


E onde Pentecostes entra nisso? Foi lá que tudo começou. Jesus, em Lucas 24,44, demonstrou aos Doze como a Sua Pessoa se encontrava prefigurada na Lei e nos Profetas. Nós não sabemos o que Ele disse, em detalhes – ou melhor, isso não está na Bíblia. Mas sabemos que os Seus Apóstolos pregaram isso a esmo! Atos 5, Estevão defendeu-se no Sinédrio falando do Antigo Testamento. Atos 8, Filipe explica Isaías ao eunuco. Paulo, esse sim pregou esse conteúdo em cada sinagoga. Em outras palavras, Cristo deixou um legado oral – uma tradição – que foi pregada pelos Doze. Quando Paulo pregou “a palavra” aos judeus de Bereia (Atos 17), ele não pregou as Escrituras: “eu recebi do Senhor o que vos transmiti” (I Coríntios 11,23).


A mesma coisa fez Pedro em Atos 2. E ali mesmo, ele invocou a promessa de Nosso Senhor: “arre­pen­dei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo, pois a promessa é para vós, para os vossos filhos e para todos os que ouvirem de longe o apelo do Senhor, nosso Deus” (Atos 2,38-39). 


Sendo assim, vemos uma estrutura clara em Atos 17: um ensino, transmitido oralmente – “a Palavra”, por um grupo de mestres, delegados por aquele que é o Sumo Mestre- os Doze, aqui no caso, São Paulo – para interpretar escritos de uma certa comunidade. Esse é o retrato mais claro da Igreja Católica como conhecemos: Escritura, Tradição e Magistério. Vemos aqui a Igreja nos seus primeiros passos, já com um formato muito parecido com o que sempre vimos, e sempre veremos! Essa é a Igreja de Pentecostes, que continuou a se desenvolver até a Igreja Católica que conhecemos hoje.


Contra essa conversa fiada de evangelicalismo retroativo, eu deixo o final do texto do meu amigo: “a Igreja não caiu pronta dos céus, foi erguida por Deus sobre homens, e assim permanece em um Pentecostes contínuo. O católico romano ou cristão ortodoxo que estuda a história da Igreja deve fugir da persuasão de críticos que distorcem os textos primitivos a fim de dissociar a fé dos apóstolos segundo seus próprios vieses (protestante, historicista, explicitamente anticristão, que seja), mas se imagina Cristo celebrando a Santa Ceia paramentado em canto gregoriano ou bizantino sobre um altar adornado, vai se decepcionar”.


Contra todos os ramos protestantes – sejam dois ou um zilhão – eu chamo à atenção uma coisa: a Igreja de Pentecostes permanece alimentada pelo mesmo Pentecostes, afinal, essa foi a promessa de Jesus: que estaria conosco até o fim do mundo, e que o inferno nunca levaria vantagem contra Sua Igreja (Mateus 16,18). 


Por isso, convocamos todos vocês que estudem essa Igreja de Pentecostes, e como ela se desenvolveu. Nós não estamos forçando ninguém a se converter – mesmo que esse seja nosso maior desejo e nossa intenção de oração todos os dias, para quem é desse apostolado. Nós queremos que todos dêem uma chance e sejam honestos intelectualmente. De polêmicas e historicismo, o mundo já está cheio!


Se você se nega, mesmo sabendo que a Igreja de Pentecostes possui essa estrutura, e ainda possui perpetuidade e  continuidade, você estará voltando à estaca zero dos discípulos de Cristo, ao duvidar da promessa de que o Espírito viria a nós, para que Cristo estivesse conosco até o fim dos tempos. E quem sabe, até duvidando das suas próprias palavras de que não nos abandonaria. Afinal de contas, se essa promessa não durou mais que uns 300 anos, ai de nós que estamos 2000 anos longe da Igreja de Pentecostes.


Ou em termos mais bíblicos, temos a pergunta dos discípulos do Batista em Mateus 11,3: quem duvida da Igreja como sinal e instrumento da salvação de Cristo, nos moldes que ela foi e ainda está sendo erguida desde Pentecostes, que espere outro Messias, para refazer toda a obra de Cristo e recolocar a Igreja nos trilhos. E também, espere outro Pentecostes.

Este post tem um comentário

  1. Post excelente sobre o dia de Pentecostes. 👏👏👏👏👏👏

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