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Os amigos de Deus são meus amigos

Patrick Madrid

A cada domingo, milhões de cristãos rezam o Credo dos Apóstolos, professando sua fé na “comunhão dos santos”, mas poucos percebem a importância dessa frase, que está intrincada em outros profundos mistérios da [mesma] fé.

No entanto, o entendimento católico dessa questão é denunciado pelos protestantes como uma posição sem base bíblica, e é bem irônico que a doutrina da unidade cristã tenha se tornado um obstáculo à mesma. A controvérsia toda gira em torno da seguinte pergunta:

É bíblico pedir aos santos no céu para orar (interceder) por nós?

Para os católicos, sim. Os cristãos estão unidos uns com os outros através de Cristo, e são instruídos para amar e rezar uns pelos outros, portanto os cristãos na terra podem pedir aos cristãos no céu por suas orações. Já os protestantes dizem que não, já que isso diminui a importância da mediação única de Cristo, como em ITm 2,5:

“Há um só Deus e há um só mediador entre Deus e os homens: Jesus Cristo, homem”.

Os reformadores anglicanos, sob a liderança de Thomas Cranmer, arcebispo da Cantuária, afirmaram: “A doutrina romana relativa […] à invocação dos santos, é uma invenção fútil e vã, que não se funda em testemunho algum da Escritura, antes repugna à Palavra de Deus”.

A posição católica foi expressa no Concílio Vaticano II:

Por insondável e gratuito mistério da divina disposição, acham-se os homens unidos entre si por uma relação sobrenatural. Esta faz com que o pecado de um prejudique também os outros, assim com a santidade de um traga benefícios aos outros. Assim se prestam os fiéis socorros mútuos para atingirem seu fim eterno. É o antiquíssimo dogma da comunhão dos santos, segundo o qual a vida de cada um dos filhos de Deus em Cristo e por Cristo se acha unida por admirável laço à vida de todos os outros irmãos cristãos na sobrenatural unidade do Corpo Místico de Cristo, como numa única pessoa mística.

A união dos viajores [peregrinos] com os irmãos adormecidos na paz de Cristo, longe de se romper, pelo contrário, se acha reforçada pela comunicação dos bens espirituais, conforme a imutável crença recebida na Igreja. Do fato de sua íntima união com Cristo, mais ainda confirmam os bem-aventurados na santidade a Igreja inteira, e de várias maneiras contribuem na crescente obra de sua edificação (cf. 1Co 12,12-27). De fato, uma vez acolhidos na pátria celeste e permanecendo junto do Senhor (cf. 2Co 5,8), por ele, com ele e nele não cessam de interceder por nós junto ao Pai (Indulgentiarum Doctrina, 4-5; Papa S. Paulo VI)

Como disse Paulo: “nós […]formamos um só corpo em Cristo, e cada um de nós é membro um do outro” (Rm 12,5). Nós cremos que o ser membro do Corpo de Cristo significa ter uma relação pessoal com Ele e, por Ele, relacionar-se com todos os cristãos.

Um cristianismo de “Deus e eu, e mais ninguém” não é bíblico

Mesmo que os protestantes concordem com essa afirmação, eles promovem – na prática, um cristianismo individualista – “é Deus e eu, e mais ninguém[1], ensinando que a coisa mais importante de ser cristão é ter um relacionamento pessoal com Cristo, independentemente de como você se relacione com qualquer outra pessoa. Apesar disso não fazer muita diferença nesse assunto, a realidade é que a maioria dos protestantes ignoram o vínculo orgânico de unidade entre os fiéis cristãos, que é forte até mais que a própria morte.

A Bíblia é nosso meio comum para dialogar, já que concordamos que ela é a Palavra de Deus inspirada e inerrante – e alguns nem acreditam nisto. Mas para ter êxito explicando a comunhão dos santos aos protestantes, nós temos que conhecer as bases bíblicas dessa doutrina.

Algumas vezes, no entanto, os protestantes permanecem irredutíveis em seu ponto de vista, mesmo diante de uma defesa bíblica aprofundada da doutrina católica. Na verdade, a discordância está na interpretação católica dos versos, o que transforma a frase “isso não está na Bíblia” em “eu não concordo com a sua interpretação desses versículos”. Essa atitude vem do erro fatal do protestantismo: sola scriptura, ou a noção de que a Bíblia é a única regra de fé, independente da tradição ou do magistério. Os protestantes exigem de nós uma demonstração bíblica da nossa fé (o velho “onde isso tá na Bíblia?”), e quando nós fazemos isso, a nossa conclusão é simplesmente rejeitada como anti-bíblica.

Os protestantes rejeitam o conceito de um intérprete infalível da Escritura, seja ele a Igreja ou um indivíduo, eles só podem demonstrar suas opiniões baseadas no seu próprio pensamento sobre a Escritura e o que ela significa. Já a posição católica se baseia em quatro pilares:

  1. A Igreja é o Corpo de Cristo.
  2. Cristo só possui um Corpo, que é o mesmo na terra e no céu.
  3. Os cristãos não são separados uns dos outros pela morte.
  4. Os cristãos devem amar e servir uns aos outros.

A Igreja é o Corpo de Cristo

Paulo descreve a unidade dos cristãos com Cristo e uns com os outros de um modo particularmente vívido: um corpo. “Pois, como em um só corpo temos muitos membros e cada um dos nossos membros tem diferente função, assim nós, embora sejamos muitos, formamos um só corpo em Cristo, e cada um de nós é membro um do outro” (Romanos 12,4-5). O próprio Senhor falou disso quando orou: “que [eles] sejam um, como nós somos um: eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitos na unidade”. (João 17,22b-23a).

O próprio Cristo fala de si mesmo como um vinha, e dos cristãos, como os ramos dessa vinha, ilustrando o vínculo orgânico que compartilhamos (Jo 15,1-5). O ensino de que a Igreja é o corpo de Cristo é enfatizado por todo o Novo Testamento.[2]

Jesus só tem um Corpo – que é o mesmo no céu e na terra, [ou seja], não são dois para cada (Ef 4,4; Cl 3,15). Todos os cristãos, incluindo os que estão no céu, são membros desse corpo.

A morte não pode nos separar

Graças à vitória de Cristo sobre a morte – na qual participam todos os cristãos[3], a morte natural não pode separar os cristãos de Cristo ou uns dos outros. Por isso Paulo exulta: “Quem nos separará do amor de Cristo? […] Pois estou persuadido de que nem a morte, nem a vida, nos poderá apartar do amor que Deus nos testemunha em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8,35-39). Já que a morte não romper o vínculo da unidade cristã, o relacionamento entre os cristãos no céu e na terra permanece intacto.

A rixa protestante contra a ideia que os santos no céu podem rezar por nós evidencia um mentalidade onde é preciso ver para crer: “já que eu não posso ver e falar com os cristãos falecidos, então talvez eles não importem mais para mim”. Essa afirmação míope não é bíblica, e contradiz versos que os protestantes sabem de cór e salteado.

Paulo repreende os cristãos que acreditam não precisar de outros cristãos: “Mas Deus dispôs no corpo cada um dos membros como lhe aprouve. Se todos fossem um só membro, onde estaria o corpo?  Há, pois, muitos membros, mas um só corpo. O olho não pode dizer à mão: ‘eu não preciso de ti’; nem a cabeça aos pés: ‘não necessito de vós’. […] Deus dispôs o corpo de tal modo que deu maior honra aos membros que não a têm, para que não haja dissensões no corpo e que os membros tenham o mesmo cuidado uns para com os outros. Se um membro sofre, todos os membros padecem com ele; e se um membro é tratado com carinho, todos os outros se congratulam por ele”. (1 Co 12,18-21.24-26). Para os católicos, isso também se aplica aos cristãos que já estão no céu.

O vínculo cristão da caridade

O quarto pilar da lei de Cristo é a lei da caridade. Jesus disse que amar ao próximo só perde em importância para o amar a Deus (Mt 22,38; Mc 12,30-31; 1 Co 13). Essa lei da caridade é enfatizada em cada pedaço do Novo Testamento, especialmente na oração de intercessão.

Paulo exorta os cristãos para que “se façam preces, orações, súplicas, ações de graças por todos os homens”, enfatizando que a oração de intercessão é algo “bom e agradável diante de Deus, nosso Salvador” (1Tm 2,1-4). Outras exortações parecidas são feitas no Novo Testamento:

Rogo-vos, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo e em nome da caridade que é dada pelo Espírito, combatei comigo, dirigindo vossas orações a Deus por mim” (Romanos 15,30).

Sim, esperamos que ainda nos livrará se nos ajudardes também vós com orações em nossa intenção” (2Co 1,10-11).

Damos graças a Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, porque temos ouvido falar da vossa fé em Jesus Cristo e da vossa caridade com os irmãos, […] não cessamos de orar por vós e pedir a Deus para que vos conceda pleno conhe­cimento de sua vontade, perfeita sabedoria e penetração espiritual, para que vos comporteis de maneira digna do Senhor”. (Cl 1,3-4.9-10).[4]

Se ainda na terra, Paulo podia dizer: “o desejo do meu coração e a súplica que dirijo a Deus por eles são para que se salvem” (Rm 10,1); e que “me lembro de ti sem cessar nas minhas orações, de noite e de dia” (2Tm 1,3), há algum motivo para imaginarmos que, ao entrar no Céu, o amor de Paulo e seu desejo para que outros cheguem à salvação se acabaria? Será que suas orações cessaram? Não mesmo: as muitas exortações da Bíblia em relação à caridade mútua se aplicam a todos os cristãos, então elas se aplicam aos cristãos no céu. Considere essas admoestações sobre a caridade:

Ajudai-vos uns aos outros a carregar os vossos fardos, e deste modo cumprireis a Lei de Cristo” (Gl 6,2).

Que vossa caridade não seja fingida. Aborrecei o mal, apegai-vos solidamente ao bem. Amai-vos mu­tuamente com afeição terna e fraternal. Adiantai-vos em honrar uns aos outros. […] Socorrei às necessidades dos fiéis” (Rm 12,9.10.13).

Ninguém busque o seu interesse, mas o do próximo” (ICo 10,24).

A respeito da caridade fraterna, não temos necessidade de vos escrever, porquanto vós mesmos aprendestes de Deus a vos amar uns aos outros. […] Mas ainda vos rogamos, irmãos, que vos aperfeiçoeis mais e mais” (1Ts 4,9.10)

Assim, pois, consolai-vos mutuamente e edificai-vos uns aos outros […] Pedimo-vos, porém, irmãos, corrigi os desordeiros, encorajai os tímidos, amparai os fracos[…] Antes, procurai sempre praticar o bem entre vós e para com todos” (ITs 5,11.14-15. Veja também 2Co 1,10-11).

Nós podemos pedir apenas aos cristãos daqui na terra?

Um protestante pode dizer: “esses versos falam só dos cristãos daqui na terra. Eles não falam nada sobre os que estão no céu”. Mas de que lugar da Bíblia você, protestante, tirou que o mandamento divino da caridade se restringe aos que estão na terra? Os mandamentos do Senhor são eternos, estabelecidos assim na terra como no céu – certo? Mesmo que os santos no Céu não sejam explicitamente mencionados nesses versos, a participação deles é implícita.

O livro de Hebreus nos fala com admiração sobre a comunhão dos santos em ação. O capítulo 11 louva o heroísmo dos santos do Antigo Testamento, como Noé, Abraão, Sara, José, Moisés, e até mesmo Raab, a prostituta. Já o capítulo doze nos lembra que é nossa vez de combater na luta pela salvação. O mesmo escritor nos encoraja a observar e imitar as virtudes heróicas e seguir os passos dos nossos irmãos e irmãs do AT:

Desse modo, cercados co­mo estamos de uma tal nuvem de testemunhas, desvencilhe­mo-nos das cadeias do pecado. Corramos com perseverança ao combate proposto, com o olhar fixo no autor e consumador de nossa fé, Jesus” (Hb 12,1).

Observe que os santos do Antigo Testamento são chamados de testemunhas, como uma [nuvem] que nos rodeia, como se estivessem na arquibancada torcendo pela nossa vitória no estádio, enquanto seguimos os seus passos. Essa metáfora vem da corrida à pé helênica, que era um esporte com muitos espectadores no séc. I. O escritor compara a vida mortal à corrida espiritual que devemos correr, lutando para ganhar a coroa da salvação (cf. 1Co 9,24-27). [O texto] possui dois propósitos didáticos ao louvar as virtudes daqueles que correram a corrida antes de nós: lembrar-nos que os santos são espectadores da nossa corrida, e exortar à imitação dos seus exemplos.

Lembrai-vos de vossos guias que vos pregaram a Palavra de Deus. Considerai como  souberam encerrar a carreira. E imitai-lhes a fé” (Hb 13,7). [5] Os santos não são meros observadores incompassivos conosco, cristãos peregrinos na terra. Eles intercedem sinceramente por nós diante do trono de Deus, justamente por que nos amam. Se eles não intercedem, será que se pode dizer que, de fato, eles nos amam?

Jesus faz referência à essa compaixão fraternal dos cristãos falecidos na sua parábola sobre Lázaro e o homem rico (Lc 16,19-30). Mesmo estando em um lugar de tormento, ele demonstrou caridade com seus irmãos: “Rogo-te então, pai, que mandes Lázaro à casa de meu pai, pois tenho cinco irmãos, para lhes testemunhar que não aconteça virem também eles parar neste lugar de tormentos”. Mesmo em terríveis sofrimentos, ele amou os seus aqui na terra.

Mesmo que o homem rico tenha sido negado em seu pedido, não se pode negar que ele intercedeu por seus parentes na terra. Eu acredito que essa passagem é mais provável de ser uma visão do purgatório[6], já que os condenados são incapazes de amar, enquanto o homem rico demonstra caridade – o que sugere que ele não está no inferno. Os protestantes, por não acreditarem no purgatório, vão afirmar que o homem rico está no inferno, e não no purgatório. No entanto, esse argumento fortalece a posição católica sobre a comunhão dos santos: se até mesmo os condenados podem interceder pelos os que estão na terra, quanto mais os bem-aventurados no céu!

Duas objeções frequentes dos protestantes

Há duas objeções frequentes que os protestantes fazem sobre isso: primeiro, que não há evidências bíblicas de que os santos intercedem por nós, e a segunda é que os que estão no céu desconhecem qualquer coisa que acontece na terra. Essas noções, no entanto, são biblicamente insustentáveis. Em Apocalipse – o livro que nos dá a visão mais clara do que os santos fazem no céu, nós vemos casos da intercessão dos santos, e vemos claramente que eles sabem de tudo o que acontece aqui na terra (Lc 15,7; Ap 19,1-4).

Dois exemplos disso são Ap 5,8 (veja também Ap 8,3-4), onde os santos, diante do Trono do Cordeiro e do altar de ouro do santuário celeste, cantam hinos de louvor e oferecem as orações dos santos na terra, orações que sobem como fumaça de incenso. Em Ap 6,9-10, os santos martirizados suplicam a Deus imprecatoriamente contra seus assassinos, pedindo ao Senhor que vingue suas mortes. Mas mesmo sem essas passagens explícitas, é possível deduzir que os santos no céu rezam por nós, porque sabemos que a virtude da caridade neles é aperfeiçoada, enquanto nós buscamos imperfeitamente praticá-la. Eles são capazes de nos amar e interceder por nós com reta intensidade e eficácia como nunca poderiam fazer na terra.

João nos diz que “Deus é amor” e que “se alguém disser: ‘amo a Deus’, mas odeia seu irmão, é mentiroso. Porque aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus, a quem não vê. Temos de Deus este mandamento: o que amar a Deus, ame também a seu irmão” (1Jo 4,16.20-21)

Os amigos de Deus também são nossos amigos

Os cristãos no céu não são deixados de lado nesse ensino de João – pelo contrário, eles são o melhor exemplo disso! Já que estão vendo a Deus face a face e são eternamente inflamados por Seu Amor, eles não podem deixar de amar quem Deus ama. Eles estão compenetrados do amor compassivo de Deus por Seu povo – e como não estariam? Eles nos amam e intercedem por nós porque amam a Deus. No céu, o mandamento bíblico – “em obediência à verdade, ten­des purificado as vossas almas para praticardes um amor fraterno sincero. Amai-vos, pois, uns aos outros, ardentemente e do fundo do coração” (1Pd 1,22) – é perfeitamente observado.

Se os cristãos no céu fossem proibidos de interceder por nós, o céu seria um lugar bem estranho – e até mesmo Deus seria um Pai estranho. Os protestantes devem responder a seguinte questão: “por que Deus ordenou a intercessão aos cristãos na terra, mas proibiu a mesma aos cristãos no céu?” – até mesmo Lutero, quando pregando sobre 1Jo 3,13-18, pensou de um modo bem parecido com a posição católica:

Tal é a interpretação e o entendimento corretos da expressão de João – “nós sabemos que fomos trasladados da morte para a vida, porque amamos nossos irmãos”. Aqui, é expressada clara e decisivamente que nenhum homem possui vida se não ama. […] Um homem que conhece, por experiência, a infelicidade e a miséria da morte, mas entrou na vida com sua consolação, alegria e bênçãos, e busca mantê-las, também deseja que os outros sejam abençoados do mesmo modo” (ênfase minha)[7].

“Há um só mediador”

Mas ainda temos que lidar com muitas outras objeções protestantes muito comuns, e a primeira delas é a questão de que “há um só mediador” (1Tm 2,5): se Cristo é o único mediador entre Deus e os homens, pedir aos santos que rezem por nós constitui uma infração grave ao Seu papel única – isso é inaceitável! Nós devemos pedir a Deus diretamente, e ponto final.

Na verdade, nós católicos fazemos as duas coisas – e os protestantes também. Todos nós pedimos diretamente a Deus, e também pedimos aos nossos irmãos em Cristo que rezem por nós. A diferença é que nós católicos não restringimos o termo “cristãos” somente aos cristãos aqui na terra.

É bom deixar claro que a Igreja Católica não ensina de modo algum que os santos são mediadores no sentido expressado em 1Tm 2,5. Graças à Encarnação, Jesus possui um papel único como mediador: sendo o único que é Deus e também homem, assim sendo o único meio de contato entre nós e o Pai, apenas Ele é capaz de suprir o abismo do pecado que nos separa de Deus, e nenhum santo é capaz de tomar este lugar. A Igreja Católica não ensina que cristão algum é um mediador como dito em 1Tm 2,5 – no entanto ensina que, graças a essa mediação de Cristo, todos os cristãos são intercessores capazes de rezar uns pelos outros. Este ensino aparece nos cânones e decretos do Concílio de Trento[8].

Se o ato de pedir aos cristãos que estão no céu é contrário à mediação de Cristo, então também o é pedir aos cristãos daqui da terra, pois se 1Tm 2,5 elimina a intercessão dos cristãos no céu, também elimina a intercessão dos cristãos aqui na terra.

Obviamente, essa é uma péssima leitura, já que Paulo na verdade está enfatizando que os cristãos participam da mediação de Cristo através da intercessão. A nossa oração só é eficaz precisa e unicamente porque Cristo é o único mediador.

Medianeiros menores

Quando Paulo nos ordena a “se façam preces, orações, súplicas, ações de graças por todos os homens”, pois “isto é bom e agradável diante de Deus, nosso Salvador” (ITm 2,1.3), Paulo convoca todos os cristãos para exercer uma mediação menor por Cristo e em Cristo. Afinal de contas, quem faz preces, orações e súplicas é um intermediário, ou melhor, um mediador que diante de Deus pede por outra pessoa para que Ele a abençoe, cure, fortaleça, perdoe, ou salve.

A mediação cristã através da intercessão é qualitativamente diferente da mediação de Jesus, e a primeira só é possível porque Jesus é o mediador entre nós e o Pai. Por Sua morte na cruz, nós podemos nos aproximar confiadamente à presença do Pai para pedir, interceder e suplicar por outros (Ef 2,18; ITm 2,1-4; Hb 4,16).

Outro motivo pelo qual não há conflito entre a intercessão dos cristãos uns pelos outros e a mediação única entre Deus e o homem é que Jesus compartilha Suas funções únicas com outros cristãos, em graus menores.

Jesus é o Criador de todas as coisas (Jo 1,1-3; Cl 1,16-17; Hb 1,1-2), e mesmo assim Jesus compartilha essa função com o homem e a mulher, mediando Sua criação conosco através da relação sexual. A alma humana é criada por Deus, a partir de nada, no instante que a união matrimonial produz um novo corpo. O Senhor poderia ter escolhido criar sozinho a vida humana, criando corpo e alma, mas Ele não o quis, preferindo depender, de certo modo, da ação humana enquanto Criador.

Jesus é o Pastor do Seu rebanho, que é a Igreja (Jo 10,16), e mesmo assim Ele compartilha Seu pastoreio de maneira subordinada com os outros, a partir de Pedro (Jo 21,15-17), estendendo aos demais posteriormente (Ef 4,11). [É curioso que], após proclamar-se o Bom Pastor, Jesus diz que Ele é o único pastor (Jo 10,11-16), e mesmo assim essa afirmação exclusivista não contradiz com o fato de que Ele constituiu Pedro como pastor sobre o rebanho (Jo 21,15-17) ou com Seu chamado para que outros também fossem pastores (Ef 4,11).

Pedro enfatiza que Jesus nos faz participantes de Seu pastoreio chamando Ele de “supremo Pastor” (1Pd 5,4), o que implica que há pastores menores. Observe que a construção do texto grego de Jo 10,16 – “haverá […] um só pastor” – heis poimen; é a mesma de 1Tm 2,5 – “há um só mediador” – heis mesites. De fato, os apóstolos e seus sucessores – os bispos, também são pastores.

Jesus é o sumo sacerdote da Nova Aliança, eternamente presente diante do Pai, mediando Seu sacrifício único e eterno por nossa redenção (Hb 3,1; 4,14-15; 5,5-10; 7,15-26; 8,1; 9,11). Mas a Bíblia também afirma que os cristãos são chamados a participar do sacerdócio de Cristo (1Pd 2,5-9; Ap 1,6; 5,10; 20,6).

Jesus é o juiz supremo (Jo 5,27; 9,39; Rm 14,10; 2Co 5,10; 2Tm 4,1), e mesmo assim os cristãos são chamados a julgar com Cristo. Nós seremos juízes no céu, até mesmo dos anjos (Mt 19,28; Lc 22,30; 1Co 6,2-3; Ap 20,4)!

Jesus é o rei supremo do universo (Mc 15,32; 1Tm 6,15; Ap 15,3; 17,14; 19,16), mas Ele chama todos os cristãos a reinar com Ele, pois no céu teremos coroas, nos assentaremos em tronos, e reinaremos como reis junto de Cristo – mas sempre subordinados a Ele. Nosso Senhor diz: “ao vencedor concederei assentar-se comigo no meu trono, assim como eu venci e me assentei com meu Pai no seu trono” (Ap 3,21).[9]

Jesus perdoa nossos pecados e nos reconcilia com o Pai (2Co 5,18-21), mas Ele nos chama a partilhar de várias maneiras no Seu ministério de perdão e reconciliação.[10]

Obviamente, ninguém pode tomar o lugar único de Cristo como criador, pastor, sacerdote, rei, juiz, e reconciliador. Porém, todo cristão é chamado a participar dessas funções, submisso a Ele. O princípio dessa participação também se estende, na forma de intercessão, à mediação de Cristo.

Pedir diretamente a Deus

Outro argumento muito comum contra a intercessão dos santos é este: “por que pedir aos santos quando eu posso pedir diretamente a Deus?” – segundo os protestantes, versículos como estes a seguir afirmar que nós devemos recorrer apenas a Deus em nossas necessidades:

É por [Cristo] que ambos temos acesso junto ao Pai num mesmo espírito” (Ef 2,18)

Aproximemo-nos, pois, confiadamente do trono da graça, a fim de alcançar misericórdia e achar a graça de um auxílio oportuno” (Hb 4,16)

temos um intercessor junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo” (1Jo 2,1)

Sendo assim, é supérfluo pedir a intercessão dos santos, já que temos acesso ao Pai através de Jesus Cristo, sem a ajuda de terceiros.

Algumas vezes esse argumento aparece como uma analogia: se você tivesse uma linha direta para falar com o Presidente da República e pudesse visitar sempre que quisesse reclamar de alguma coisa ou pedir um favor, para quê você perderia tempo procurando o assessor dele ou um ministro quando você pode entrar no gabinete do Palácio do Planalto, e falar o que quiser com o cara que manda no pedaço?

Em outras palavras, por que pedir aos santos para encher a paciência de Deus no seu lugar (apesar de que eles podem convencê-l’O a fazer algumas coisas, e você não), quando Deus te ama e pode te dar coisas boas, bastando a você apenas chamá-l’O?

Quem pensa assim é muito ignorante. Claro que Deus quer que nós peçamos coisas diretamente a Ele – e nós fazemos isso – mas Ele também quer que nós peçamos uns aos outros por intercessões (1Tm 2,1-3). Não existe um protestante que, quando alguém lhe pede por oração, bata o pé e diga: “que coisa antibíblica! Por que você me pede para orar por você quando você mesmo pode pedir isso diretamente a Deus?” – assim, os protestantes percebem que participar da dignidade de mediador de Cristo aqui na terra através da intercessão não é antibíblico, assim como não o é participar da Sua dignidade de sacerdote, ou de rei, ou de juiz.  

Muitos protestantes amam receber pedidos de orações – e quanto não amam os santos receber estes mesmos pedidos – e encorajam outras pessoas para fazer o mesmo, especialmente os prayer warriors (guerreiros de oração)[11], que têm reputação de serem justos e poderosos na oração (Tg 5,16). Como ignorar as orações dos cristãos que estão no céu, se a justiça deles é perfeita? Ignorar o papel deles como prayer warriors, biblicamente falando, não faz sentido.

O argumento de Boettner

Loraine Boettner, o pai do anticatolicismo moderno, adota uma postura diferente na sua argumentação: “quão desonroso é para Cristo que se ensine que Ele é faltoso em piedade e compaixão por Seu povo e para tal deve ser persuadido. […] Quando Ele esteve na terra, nunca foi preciso que alguém O persuadiu para que tivesse compaixão”.

Isso não é verdade, e há vários casos na Bíblia onde Jesus foi persuadido à compaixão. Um exemplo bem chocante é a mulher cananeia que implorou para que Jesus fosse misericordioso – e quase discutiu com Jesus, até que Ele concordou em curar sua filha (Mt 15,21-28). Ao invés disso, quando Ele se deparou com os cegos, os aleijados, os aflitos e os famintos, foi movido à compaixão por eles e os tirou de sua miséria. Sua misericórdia com o vil porém arrependido ladrão na cruz foi imediata, e não foi necessário que Maria pedisse isso a Ele, mesmo ela estando presente.

Seu amor por nós é tão grande, e Seu coração é tão manso, quanto era quando Ele estava na terra; e nós não precisamos de nenhum intermediário para lhe pedir em nosso favor, seja Sua mãe segundo a carne, seja algum santo ou anjo. Pois Cristo, sendo Deus e homem, é o único Salvador, o único Mediador,  e o único Caminho até Deus. Não há uma palavra que fale que Maria […] ou os santos sejam mediadores”. [12]

Mesmo que o livro Roman Catholicism (Catolicismo Romano) seja muito usado como fonte de argumentação anticatólica, os argumentos pseudo-acadêmicos do Boettner são uma vergonha alheia para os evangélicos mais informados. Esse argumento, [por exemplo], é falho: percebam que Boettner nunca bate de frente com a posição católica. Ele bate num espantalho dizendo que os católicos crêem que Deus não vai agir a menos que Maria ou os santos intercedam por nós, e nenhum católico que crê que seja “necessário” alguém convencer Deus para fazer qualquer coisa que seja.

Boettner está ignorando a Bíblia

Boettner está ignorando a Bíblia – o que é conveniente – quando ela diz que Deus se agrada quando alguém intercede por outra pessoa (1Tm 2,1-4), e que, às vezes, Deus intervém apenas por causa de uma intercessão, por motivos que não podemos perscrutar. Paulo enfatiza que Deus muitas vezes concede graças “por intervenção de muitas pessoas” (2Co 1,10-11).

Boettner também não menciona o exemplo bíblico da intercessão de Maria junto a Cristo, sobre uma matéria relativamente mundana: as bodas de Caná (Jo 2,1-10); muito menos aborda o fato de que os mártires intercedem junto a Deus no Céu, clamando que Ele vingue suas mortes (Ap 6,9-11).

A Bíblia é cheia de exemplos onde anjos e santos intercedem junto a Deus por outras pessoas. Abraão intercedeu por Sodoma e Gomorra (Gn 18,16-32). Moisés intercedeu pelo povo de Israel, implorando que Deus não os destrua, e Deus se contém (Ex. 32,7-14). Um anjo intercedeu por Jerusalém (Zc 1,12), e Paulo intercedeu pela Igreja (Cl 1,9-12).

Nem toda oração é adoração

No entanto, há uma razão fundamental para a aversão dos protestantes à invocação de santos: muitos deles, especificamente os fundamentalistas, têm um entendimento muito precário acerca da oração. Já que a melhor forma de adorar é a oração (para eles não há distinção entre adoração e oração), as orações católicas aos santos parecem mais com blasfêmias. Na verdade, a melhor forma de adorar não é a oração, e sim a Missa – isto é, o sacrifício do próprio Cristo, atualizado para nós no tempo e no espaço.

Apesar de que toda adoração é oração, nem toda oração é adoração. Pedir a intercessão dos santos não é mais que pedir a intercessão de outro cristão. Não há outro meio que pedir aos que estão no céu exceto pela comunicação mental, e podemos chamar isso de “oração”, mas não podemos confundir isso com a oração que adora, dada apenas a Deus.

Muitas orações ao mesmo tempo

Alguns também objetam: “como os santos conseguem ouvir milhões de orações ao mesmo tempo, em tantas línguas diferentes? Só quem é onisciente e onipresente consegue fazer isso, e somente Deus é onisciente e onipresente”. Mas esse raciocínio possui três falhas.

Em primeiro lugar, os santos estão vivendo na eternidade, portanto não estão limitados nem pelo tempo e nem pelo espaço. Eles transcendem ambos, e por isso é possível dizer que não leva um instante para ouvir tantas orações, já que eles fora do tempo.

Em segundo lugar, já que há um número finito de pessoas aqui na terra, só há um número finito de orações ao mesmo tempo. Então, não é necessário ser onisciente ou onipresente para ouvir tantas orações que são feitas num instante, não importa quantas sejam.

E por último, é absurdo pensar que as capacidades dos santos no céu são tão pequenas quanto as nossas [aqui na terra]. Nossa incapacidade de entender como os santos ouvem tantas orações não é motivo para crer que eles não as ouvem. Em seu estado de glória, os santos são capazes de fazer coisas que nós nem podemos imaginar: “coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que o amam”. Os que estão no céu se alegram por um só pecador que se arrepende (Lc 15,7.10), mas nós não sabemos como eles tomam conhecimento disso.

Nós sabemos que, no céu, seremos transformados à imagem do Corpo ressureto de glorioso de Cristo. Paulo nos garante: “o Senhor Jesus Cristo […] transformará nosso mísero corpo, tornando-o semelhante ao seu corpo glorioso” (Fp 3,20-21). João diz: “desde agora somos fi­lhos de Deus, mas não se manifestou ainda o que havemos de ser. Sabemos que, quando isso se manifestar, sere­mos semelhantes a Deus, porquanto o veremos como ele é” (1Jo 3,2). Com Seu Corpo ressuscitado, Jesus foi capaz de coisas incríveis, até mesmo de atravessar paredes (Jo 20,19). “Assim também é a ressurreição dos mortos. Semeado na corrupção, o corpo ressuscita incorruptível; semeado no despre­zo, ressuscita glorioso; semeado na fraqueza, ressuscita vigoroso”. O Céu é um lugar incrível cheio de pessoas que, pela graça infinita de Deus, são capazes de fazer coisas incríveis.

Invocação de mortos

E finalmente, alguns levantam a seguinte objeção: “os santos estão mortos, e a Bíblia proíbe o contato com os mortos (necromancia)”. Há uma confusão de termos aqui: a necromancia é uma tentativa de dominar poderes diabólicos para, entre outras coisas, se comunicar com certos espíritos. A Bíblia condena essa prática ocultista, que inclui coisas como transes, sessões espíritas e encantamentos. [13]

Pedir aos santos que intercedam por nós não é invocação de mortos. Pedir aos cristãos que estão no céu para que intercedam por nós não tem nada de diferente do que pedir o mesmo aos daqui da terra – a não ser no modo de comunicação. Além disso, os santos não estão nem um pouco mortos. Eles estão muito mais vivos do que nós aqui na terra.

O próprio Jesus disse: “não lestes no livro de Moisés como Deus lhe falou da sarça, dizendo: Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó? Ele não é Deus de mortos, senão de vivos. Portanto, estais muito errados” (Mc 12,26-27; veja também Sb 3,1-3 e Jo 17,3). E até mesmo quando o Senhor falou essas palavras para Moisés no Monte Horeb [Ex 3,6], os patriarcas estavam mortos há mais de 500 anos.

Uma última pergunta: se Jesus não queria nenhum contato entre os santos da terra (como Paulo chama, preventivamente, os cristãos) e os santos no céu, por que Ele fez questão de conversar com Moisés e Elias – dois santos “mortos”, na frente de Pedro, Tiago e João? (Mt 17,1-8)

Notas:

 

  1. O texto original não cita essa canção do cantor Leonardo Borges (“Deus e Eu”).

 

  1. Como em 1Co 10,16; 12,12-27; Gl 3,28; Ef 1,22-23; 3,4-6; 4,4.15.25; 5,21-32; Cl 1,1; 3:15; Hb 13,1-3.

 

  1. Veja 1Co 15,25-26; 54-56; 2Co 2,14; 2Tm 1,10.

 

  1. Veja também: At 8,24; 2Co 13,7; Fp 1,9; Gl 5,13; 6,2; Ef 4,32; 1Ts 3,10-12; 4,9-18; 5,14-15.25; 2 Ts 1,3; 3,1; 1 Tm 2,1-4; 2Tm 1,3-4; Hb 3,19; 13,18; Tg 5,16; 1Pd 1,22; 3,8; 1Jo 4,7-21; 2Jo 5.

 

  1. Veja também: 1Co 11,1; Fp 3,17; 4,19; 1 Ts 1,6-7.

 

  1. Veja 1Co 3,12-15; 1 Pd 3,19; 4,6.

 

  1. Sermons of Martin Luther, ed. John Nicholas Lenker (Grand Rapids: Baker Book House, 1988), vol. 8, 52-54.

 

  1. Concílio de Trento – Sessão XXV (Montfort) – A invocação, a veneração e as Relíquias dos Santos, e as sagradas Imagens.

 

  1.  Veja também Mt 19,23; Lc 22,30; Ap 1,6; 5,10.

 

  1.  Veja Mt 9,5-8, 18,18; Jo 20,21-22; At 2,38; 2Co 5,18-20; Tg 5,14-15.

 

  1. Termo usado por muitos cristãos, principalmente evangélicos, para se referir a qualquer pessoa comprometida em orar pelos outros (Wikipedia).

 

  1. BOETTNER, L. Roman Catholicism. Philadelphia: Presbyterian and Reformed (1962), págs. 147-148.

 

  1. Lv 19,26.31; 20:6.27; Dt 18,10-12; 1Sm 28,4-18; Is 8,19; 47,12-14.

Título original: Any Friend of God Is a Friend of Mine
Autor: Patrick Madrid
Publicação original: revista This Rock, ed. Set.\1992.
Citações bíblicas: Bíblia Ave Maria
Tradução: Symon Bezerra

Patrick Madrid

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