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Como conheci a verdadeira Igreja de Cristo

Nasci em uma família protestante, ex-católica, meus bisavós e avós eram católicos e seus filhos foram batizados católicos. Minha avó paterna fazia parte da Pia  União das Filhas de Maria e minha avó materna era devota de Nossa Senhora Aparecida. Quando nasci, em 1985, meus pais já frequentavam em Santa Luzia-MG um templo protestante. Hoje toda a família é protestante. Fui “apresentado”, não batizado, e quando criança ia aos cultos várias vezes por semana na Igreja Cristã Maranata (ICM). Meu pai era pastor. Eu frequentava as escolas bíblicas dominicais, algumas vezes com minha mãe como professora. Lembro-me das aleluias (insetos) que infestavam os corredores do templo. Lembro-me dos cantos tradicionais, ao som de teclado, tocado por uma moça chamada Joana D’Arc (hoje sou devoto da santa de mesmo nome). Lembro-me que, por ter que chegar cedo, brincava com outras crianças de quem conseguiria encontrar primeiro em sua Bíblia o livro Sofonias, ou o livro Joel, ou  Miqueias ou outro. Lembro-me dos inúmeros maanains (espécie de acampamento) que participei. Cresci nesse ambiente. Um ambiente que me deu alguma base cristã, algum conhecimento sobre Jesus Cristo, para que, posteriormente, fosse possível que eu alcançasse a integralidade da fé. Sou grato aos meus pais por isso. Às vezes penso que se tivesse nascido num ambiente católico isso teria sido pior. Deus sabe o que faz. Se tivesse crescido em um ambiente católico morno e não praticante, fato muito comum na vida de milhões de brasileiros, talvez me tornasse também um católico morno e não praticante.

Cresci em um ambiente conservador o bastante para que algo me incomodasse com o mundo moderno e conflituoso e, consequente, com o próprio ambiente protestante. Conservador porque a atmosfera do culto era mais tradicional, com hinos mais tranquilos, geralmente apenas voz e violão e/ou teclado. As mulheres eram incentivadas a não deixar o cabelo curto, a não usar calças e não podiam ser pastoras; ir à praia e ver futebol eram comportamentos  malvistos; os homens também deveriam se portar bem: nunca com bermuda e barba por fazer. Frequentemente se falava sobre o Apocalipse, sobre “Jesus está voltando”, sobre o perigo da “Nova Era” – o que era isso exatamente no ponto de vista deles nunca ficou muito claro, mas me metia medo.

Um dos primeiros conflitos com que me deparei no protestantismo e que sempre me incomodou foi a questão moral. Frequentemente ouvia discussões sobre os “usos e costumes”, e sobre pecado, entre familiares e protestantes. Afinal, o que é pecado e o que não é pecado? Ir à praia é pecado? Mulher vestir calça é pecado? Mulher pode ser pastora ou não? E namorar é pecado? E escutar rock? E tatuagem? E usar bateria no culto? E ver novela da Globo? E assistir Jaspion e Cavaleiros dos Zodíacos? E bebida alcoólica? E jogar baralho? E dar pirueta? Onde está na Bíblia? Sempre fiquei espantado com o fato de que se houvessem dez protestantes numa sala, de congregações diferentes ou não, eles não concordariam entre si sobre coisa alguma. E isso não é nenhuma figura de linguagem. Vi

Outra questão que me intrigava era o uso do termo “seita”. Também era uma discussão frequente entre os protestantes com os quais convivi se tal ou qual congregação era uma “seita”. A Maranata é seita? E os Testemunhas de Jeová? Assembleia de Deus? E os Adventistas? E a Presbiteriana? E a Quadrangular? E a Batista? E aquela outra? E se uma denominação está certa em algumas coisas e errada em outras, é seita ou não? Onde está na Bíblia? Em minha cabeça a questão que se formava era: mas, afinal, quem era seita e quem não era? Será que eu que estou na Maranata estou numa seita? Todas as denominações não podem estar certas ao mesmo tempo, mas fácil e possivelmente todas podem estar erradas ao mesmo tempo.

Essas eram questões com frequência levantadas e que não conseguiam ser respondidas com exatidão por ninguém. Tais discussões se estendiam para outros pontos doutrinais, como batismo, salvação, papel do Espírito Santo (pentecostes, dons do Espírito Santo, orar em línguas, batismo com o Espírito Santo), sonhos e profecias revelados, qual dia devemos guardar, qual prescrição do Antigo Testamento ainda vale, dízimo, interpretação do Apocalipse, como o arrebatamento aconteceria, quem era a pessoa do anticristo etc. (muitos eteceteras). Sempre se remetiam à pergunta: isso é bíblico ou não é bíblico? Esses temas igualmente não recebiam nenhum tipo de resposta definitiva, pois dependia da visão de cada um ou da denominação de cada. Enfim, todas essas discussões pareciam não levar a lugar nenhum e ninguém parecia ter certeza infalível sobre nada; a isso chamo de ambiente conflituoso.

É necessário dar um passo atrás e explicar qual era minha visão e relação com a Igreja Católica. Basicamente aprendi que a Igreja Católica foi uma religião criada pelo Imperador Constantino, repleta de crenças e práticas pagãs antibíblicas que foram sendo incorporadas por ele e por outras pessoas ao longo da história medieval. Os católicos seriam pagãos, não cristãos de verdade. Não passavam de pessoas tolas adorando imagens de gesso, prática condenada pela Bíblia (está lá, em Êxodo 20). Os tolinhos, os pobrezinhos, nunca leram essa passagem. Dois mil anos de história, milhares de santos, doutores, teólogos, bispos, Papas, dezenas de concílios, e ninguém leu esse versículo. Que coisa, hein?

Enfim, foi me ensinado que a Igreja Católica só merece ser ignorada, não há nada de interessante lá para aprendermos. Pelo menos nada interessante sobre cristianismo, pois o cristianismo verdadeiro claramente é aquele dos primeiros séculos e esse só se encontrava nas igrejas protestantes, que são a restauração do verdadeiro cristianismo a partir de Lutero!

Estudei em escola batista, que, na verdade, era mais socialista que protestante, tendo também me influenciado negativamente na minha visão sobre a Igreja. Por outro lado – e essa foi a minha única experiência com a Igreja Católica até minha vida adulta – quando tinha por volta dos seis ou sete anos fomos à Igreja Matriz de Santa Luzia, um templo barroco do século XVIII, por motivo de visita escolar. O ambiente de um templo barroco, ainda mais para uma criança, é algo que inspira certo temor, reverência e sacralidade. Lá vi uma imagem entalhada em madeira do Cristo deitado, chagado e morto, que está em um dos altares laterais. Essa imagem ficou impressa (e realmente fiquei impressionado) para sempre em minha mente, sem que ninguém tivesse falado nada sobre ela. O sofrimento do Cristo transpareceu e gerou em mim um sentimento de compaixão por sua morte. Havia algo de verdadeiro ali. Em outras palavras, aquela escultura funcionou exatamente como a Igreja Católica diz que deve funcionar: como uma inspiração, como uma representação material de uma realidade espiritual. Talvez por ter tido essa experiência, mais tarde não tive tanta dificuldade para desfazer os preconceitos contra as imagens religiosas. Mas também acredito que Santa Luzia, mártir cega do século II, tenha concedido a graça de abrir minha visão.