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As glórias de Maria são por causa de seu Filho
São John Henry Newman

Sabemos, meus irmãos, que no mundo natural nada é supérfluo, nada é incompleto, nada é independente; mas a parte corresponde a parte, e todos os detalhes combinam para formar um poderoso todo. Ordem e harmonia estão entre as primeiras perfeições que discernimos nesta criação visível; e quanto mais as examinamos, mais ampla e minuciosamente percebemos que elas pertencem ao todo. “Todas as coisas formam dupla” diz o Homem Sábio, “e ele não fez nada incompleto” (Eclo 42,25). Este é o mesmo caráter e a mesma definição de “os céus e a terra”, enquanto contrastados com o acaso ou caos que os precederam, tudo agora está sujeito a leis fixas; e cada movimento, influência e efeito podem ser explicados e, se nosso conhecimento fosse suficiente, antecipados. Além do mais, é claro, por outro lado, é apenas na proporção de nossa observação e pesquisa que esta verdade se torna evidente; pois embora um determinado número de fenômenos pareçam mesmo proceder à primeira vista de acordo com uma ordem preestabelecida e bela, ainda em outras instâncias as leis às quais elas se conformam são descobertas com dificuldade; e as palavras “chance”, “acaso”, e “sorte”, passaram a ser usadas como expressões da nossa ignorância. Consequentemente, você pode pensar nas mentes precipitadas e irreligiosas que estão ocupadas dia após dia com os negócios mundanos que de repente olham para os céus ou para a terra e criticam o grande Arquiteto, argumentando que existem criaturas que são rudes ou imperfeitas em sua constituição, fazendo perguntas que apenas evidenciam sua necessidade de educação científica.

 

O caso é o mesmo no que refere ao mundo sobrenatural. As grandes verdades da Revelação estão todas interconectadas e formam um todo. Cada um pode ver isso em certa medida ainda que em um relance, mas entender a consistência plena e a harmonia do ensinamento católico exige estudo e meditação. Por isso, assim como os filósofos deste mundo encerram-se em museus e laboratórios, descem para dentro de minas, vagueiam entre bosques ou em praias, da mesma forma aquele que busca as verdades celestes habita nas celas e oratórios, derramando seu coração em oração, analisando seus pensamentos na meditação, habitando na doutrina de Jesus, de Maria, da Graça ou da Eternidade, e ponderando sobre as palavras dos homens santos que vieram antes dele, até que a visão de sua mente se eleve até a alta sabedoria do perfeito, “que Deus, antes dos séculos , de antemão destinou para a nossa glória” (I Co 2,7) e que Ele “[nos] revelou pelo Espírito” (v.10). E, assim como o homem ignorante pode contender sobre a beleza e harmonia da criação visível, assim são os homens, que durante seis dias da semana estão absorvidos na labuta mundana, que vivem pela riqueza, fama, autoindulgência ou conhecimento profano, e apenas dão seus momentos de lazer ao pensamento religioso, nunca elevando suas almas a Deus, nunca rogando por Sua graça iluminadora, nunca corrigindo seus corações e corpos, nunca contemplando firmemente os objetos de fé, mas julgando precipitadamente e peremptoriamente de acordo com suas opiniões pessoais ou com seu humor momentâneo; tais homens, eu digo, do mesmo modo, podem facilmente, ou certamente irão, ser surpreendidos e chocados por porções da verdade revelada, como se fossem estranhas, severas, extremas ou inconsistentes, e irão rejeitá-las inteiramente ou parcialmente.

Aplicarei esta observação ao assunto das prerrogativas com as quais a Igreja investe a Bendita Mãe de Deus. Elas são surpreendentes e difíceis para aqueles cuja imaginação não está acostumada a elas, e para aqueles cuja razão não meditou sobre elas; mas quanto mais elas são meditadas cuidadosa e religiosamente, mais, tenho certeza, elas serão consideradas essenciais para a fé católica, e complementares para a adoração de Cristo. Este é simplesmente o ponto sobre o qual eu devo insistir – disputado na verdade por aqueles alheios a Igreja, mas claro para os filhos dela – que as glórias de Maria existem por causa de Jesus; e que louvamos e bendizemos a ela como a primeira das criaturas, e que devemos confessar somente a Ele como nosso Criador.

Quando a Palavra Eterna decretou vir ao mundo, Ele não propôs, ele não operou pela metade; mas Ele veio para ser um homem como qualquer um de nós, tomando uma alma e um corpo humano, fazendo-os próprios Dele mesmo. Ele não veio em uma forma aparente ou acidental, como os anjos aparecem para os homens, nem simplesmente possuiu um homem existente, como Ele habita em Seus santos, e chamou-o pelo nome de Deus; mas Ele “se fez carne”. Mas ele se apegou a uma humanidade, e se tornou real e verdadeiramente homem da mesma maneira que era Deus, para que daí em diante Ele fosse Deus e Homem, ou, em outras palavras, Ele foi Uma Pessoa em duas naturezas, divino e humano. Este é um mistério tão maravilhoso, tão difícil, que apenas a fé o recebe firmemente; o homem natural pode admitir isso por um tempo, ele pode pensar que admite, mas nunca realmente o aceita; começa, tão logo o tem professado, a se rebelar, fugir ou se revoltar contra ele. Isso tem acontecido desde o início, mesmo durante a vida do discípulo amado levantaram-se homens que diziam que nosso Senhor não possuía absolutamente um corpo ou possuía um corpo emoldurado nos céus, que Ele não sofreu, mas outro sofreu em Seu lugar, que Ele apenas possuiu por um tempo a forma humana que nasceu e sofreu, vindo a esta forma no batismo e deixando-a antes da sua crucificação, ou, novamente, que Ele era meramente um homem. Que “no princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus, e o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,1.14) era uma coisa muito difícil para a razão não regenerada.

Agora, se você testemunhasse contra essas opiniões não cristãs, se você apresentasse distintamente e sem erros e evasões, a ideia simples da Igreja Católica que Deus é homem, você poderia fazer isso melhor do que estabelecendo nas palavras de São João que “Deus se fez homem”? E, novamente, você poderia expressar isso mais enfática e inequivocamente do que declarando que Ele nasceu homem, ou que Ele tem uma Mãe? O mundo permite que Deus seja homem; essa admissão custa-lhe pouco, pois Deus está em todos os lugares, e (como poderia ser dito) é todas as coisas; mas evita confessar que Deus é o Filho de Maria. Ele evita, pois é confrontado ao mesmo tempo com um fato severo, que viola e despedaça sua própria perspectiva incrédula das coisas; a doutrina revelada imediatamente toma uma forma verdadeira, recebe uma realidade histórica; e o Todo-Poderoso é introduzido em seu próprio mundo em um tempo determinado e de forma definitiva. Devaneios são destruídos e sombras afastadas; a verdade Divina não é mais uma expressão poética, um exagero devoto, uma economia ou representação mística. “Sacrifícios e ofertas”, as sombras da Lei; “tu, porém, formaste-me um corpo” (Hb 10,5). ”O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos, o que nossas mãos apalparam […] o que vimos e ouvimos vo-lo anunciamos” (1Jo 1,1-3) – este é o registro do Apóstolo, em oposição àqueles “espíritos” que negavam que “Jesus Cristo veio na carne”, e que O “dissolviam” por negar Sua natureza humana ou divina. E a confissão que Maria é Deípara, ou Mãe de Deus, é a garantia na qual selamos e asseguramos a doutrina do Apóstolo de todas as evasões, e o teste por meio do qual detectamos todas as pretensões daqueles espíritos maus do “anticristo […] e agora ele já está no mundo” (4,3).  Isso declara que Ele é Deus; isso implica que Ele é homem; isso nos sugere que Ele continua sendo Deus, embora tenha se feito homem, e que Ele é verdadeiramente homem embora seja Deus. Ao testemunhar o processo da união, é assegurado a realidade dos dois assuntos da união, da divindade e da humanidade. Se Maria é a Mãe de Deus, Cristo precisa ser literalmente Emmanuel, Deus conosco. E a partir daí foi que, quando tempo passou, e os espíritos maus e falsos profetas ficaram mais fortes e ousados, e encontraram um caminho dentro do próprio corpo católico, então a Igreja, guiada por Deus, não pode encontrar nenhuma maneira mais eficaz e certa de expeli-los do que usando esta palavra Deípara contra eles; e, por outro lado, quando eles subiram novamente dos reinos da escuridão, e planejaram a derrocada total da fé cristã no século XVI, então não puderam encontrar nenhum recurso mais seguro para seu propósito odioso do que ultrajar e blasfemar as prerrogativas de Maria, pois eles sabiam muito bem que, se eles pudessem fazer com que o mundo desonrasse a Mãe, a desonra do Filho viria em seguida. A Igreja e Satanás concordam que o Filho e a Mãe estão juntos; e a experiência de três séculos tem confirmado seu testemunho, pois os católicos que têm honrado a Mãe, continuam adorando o Filho, enquanto os protestantes, que agora pararam de confessar o Filho, começaram zombando da Mãe.

O caso é o mesmo neste dia; os protestantes simples raramente possuem qualquer percepção real da doutrina do Deus e homem em uma pessoa. Eles falam de maneira devaneante e umbrosa da divindade de Cristo; mas, quando seu significado é peneirado, você os achará muito lentos para se comprometerem com qualquer afirmação suficiente para expressar o dogma católico. Eles imediatamente dirão a você que o assunto não é para ser investigado, pois é impossível investigá-lo sem ser técnico e sutil de qualquer modo. Então, quando eles comentarem a respeito dos Evangelhos, eles falarão de Cristo, não simples e consistentemente como sendo Deus, mas como um ser composto de Deus e homem, parte um e parte outro, ou entre ambos, ou como um homem habitado por um presença divina especial. Algumas vezes eles irão adiante até mesmo negando que Ele estava no céu como Filho de Deus, dizendo que ele se tornou o Filho quando foi concebido pelo Espírito Santo; e eles ficam chocados, e pensam ser um sinal de reverência e bom senso ficar chocados quando ouvem o Homem falar de maneira simples e clara como Deus. Eles não podem suportar ter de dizê-lo, exceto como uma figura ou modo de falar, que Deus tem um corpo humano, ou que Deus sofreu; eles pensam que a “expiação”, e “a santificação através do Espírito”, como eles dizem, é o ser e a substância do Evangelho, e eles desconfiam de qualquer expressão dogmática que vai além disso. Creio que este é o caráter comum entre nós das noções protestantes em relação à divindade de Cristo, quer entre os membros da Comunhão Anglicana, ou dissidentes dela, exceto um pequeno remanescente dela.

Vejam então, meus irmãos, neste caso específico, a harmoniosa consistência do sistema revelado, e como uma doutrina está ligada a outra; Maria é exaltada por causa de Jesus. Era conveniente que ela, enquanto criatura, embora a primeira das criaturas, possuísse um ofício de ministração. Ela, assim como as outras criaturas, veio ao mundo para realizar uma obra, ela possuía uma missão a cumprir; sua graça e glória não são por sua própria causa, mas para a glória de seu Criador; e a ela é concedida a custódia da Encarnação; este é o ofício apontado a ela, – “a Virgem conceberá, e dará a luz a um Filho, e ele será chamado Emanuel” (Mt 1,23). Tendo em vista que ela esteve sobre a terra, e foi pessoalmente a guardiã de sua Criança Divina, enquanto ela O carregou em seu útero, guardando-O em seu abraço, amamentando-O em seu seio, então agora, e até o último instante da Igreja, dar a ela glórias e devoções proclama e define a fé correta concernente a Ele como sendo Deus e homem. Cada igreja que é dedicada a ela, todo altar que se eleva sob sua invocação, cada ladainha em seu louvor, cada Ave-Maria em sua contínua memória, não faz nada além de nos lembrar que existe Um que, embora seja bendito desde toda a eternidade, por causa dos pecadores “não recuou ante o útero da Virgem”. Por isso, ela é a Turris Davidica, como a Igreja a chama, “a Torre de Davi”; a alta e forte defesa do Rei do verdadeiro Israel, e por isso a Igreja também se refere a ela na antífona como tendo “destruído sozinha todas as heresias em todo o mundo”.

E aqui, meus irmãos, um pensamento novo se abre sobre nós, que está implícito naturalmente no que tem sido dito. Se a Deípara é testemunha de Emanuel, ela deve ser necessariamente mais que Deípara. Considere pois; uma defesa deve ser forte para poder ser uma defesa; uma torre deve ser, como a Torre de Davi, “construída com baluartes […] dela pendem mil escudos e armaduras dos heróis” (Ct 4,4). Não seria suficiente para trazer e gravar em nós  a ideia de que Deus é homem se Sua Mãe tivesse sido uma pessoa comum. Uma mãe sem um lar na Igreja, sem dignidade, sem dons, teria sido, no que diz respeito à defesa da Encarnação, mãe nenhuma. Ela não teria permanecido na memória ou na imaginação dos homens. Se ela é a testemunha e o lembrete para o mundo de que Deus se fez homem, ela precisa estar em uma posição alta e eminente para este propósito. Ela deve ser feita de modo que encha as mentes, a fim de gravar a lição. Uma vez que ela atrai nossa atenção, então, e só então, ela começa a pregar Jesus. “Por que ela teria tais prerrogativas,” perguntamos, “a menos que Ele seja Deus? E o que deve ser Ele por natureza, quando ela é tão grande por graça?” É por isso que ela possui outras prerrogativas além, nomeadamente, os dons da pureza e do poder intercessor pessoal, distintos da maternidade, ela é endossada pessoalmente de maneira que possa realizar bem seu ofício; ela é exaltada em si para que possa ministrar a Cristo.

Por esta razão, ela se tornou mais gloriosa pessoalmente do que em seu ofício; sua pureza é um dom maior que sua relação com Deus. Isto é o que está implícito na resposta de Cristo a mulher na multidão que gritou, quando Ele estava pregando, “Felizes as entranhas que te trouxeram e os seios que te amamentaram”. Ele replicou apontando a seus discípulos uma bem-aventurança maior; “felizes antes, os que ouvem a Palavra de Deus e a observam” (Lc 11,28). Vocês sabem, meus irmãos, que os protestantes tomam estas palavras como uma depreciação da grandeza de Nossa Senhora, mas elas contam na verdade uma outra história. Considere, pois, então: Ele estabelece um princípio, o de que é uma bênção maior guardar Seus mandamentos do que ser Sua Mãe; mas quem, mesmo entre os protestantes, dirá que Ela não guardou Seus mandamentos? Ela certamente guardou-os, e Nosso Senhor apenas diz que tal obediência estava em uma linha de privilégio mais alta do que ser Sua Mãe; ela era mais abençoada em sua distinção das outras criaturas, em sua devoção a Deus, em sua pureza virginal, em sua plenitude em graça do que em sua maternidade. Este é o ensino constante do Santos Padres: “Maria foi mais abençoada”, diz Santo Agostinho, “ao receber a fé de Cristo do que ao conceber a carne de Cristo”, e São João Crisóstomo declara que ela não teria sido abençoada, embora tivesse dado a luz a Ele no corpo, se não tivesse ouvido a Palavra de Deus e a guardado. Este é um caso impossível, é claro; pois ela foi feita santa, para que ela pudesse ser Sua Mãe, e essas duas bênçãos não podem ser divididas. Aquela que foi escolhida para fornecer a carne e o sangue à Palavra Eterna foi primeiro enchida com a graça em sua alma e corpo; ainda assim, ela possuía uma bênção dupla, de cargo e de qualificação, e a segunda era a maior. E é por este motivo que o anjo a chama de abençoada, “cheia de graça”, ele diz; “bendita entre as mulheres” diz Santa Isabel,  e também, quando grita: “feliz aquela que creu”. Mais que isso, ela mesma apresenta um testemunho semelhante, quando o anjo lhe anuncia o grande favor que seria dado a ela. Embora todas as mulheres judias em todas as sucessivas eras tenham esperado ser a Mãe de Cristo, tanto que o casamento era honroso entre elas e a infertilidade reprovável, apenas ela pôs de lado o desejo e o pensamento de tão grande dignidade. Ela, que deveria parir o Cristo, não deu nenhum tipo de boas-vindas ao grande anúncio de que ela daria à luz a Ele – e porque ela age desta maneira? Porque ela havia sido inspirada, a primeira da humanidade, a dedicar sua virgindade a Deus, e ela não deu as boas-vindas a um privilégio que parecia implicar a violação de seu voto. Como pode ser isto, ela questiona, sendo que eu vivo separada de homem? (Lc 1,34) – tampouco ela reconhece o anjo seguramente como um mensageiro de Deus até que ele conte a ela que a concepção será miraculosa e por meio do Espírito Santo, então ela deixa de lado sua objeção de consciência e inclina sua cabeça em reverência e gratidão à condescendência de Deus.

Maria é então um exemplo, e mais do que um exemplo, na pureza de sua alma e corpo, do que o homem era antes de sua queda, e do que ele haveria de ser quando tivesse chegado perfeição plena. Havia sido difícil, havia sido uma vitória para o Maligno, toda a raça humana caiu, e nenhum exemplo houve que mostrasse o que o Criador pretendia que fosse o estado original. Adão, vocês sabem, foi criado a imagem e semelhança de Deus; sua natureza frágil e imperfeita, estampada com o selo Divino, foi suportada e exaltada pela habitação da graça Divina. Paixões impetuosas não existiam nele, apenas como um elemento latente e um mal possível; a ignorância era dissipada pela luz clara do Espírito; e a razão, soberana sobre todo o movimento de sua alma, era simplesmente sujeita a vontade a Deus. Mais que isso, até mesmo seu corpo era preservado de todo apetite e afeição instável, e a imortalidade foi prometida ao invés da dissolução. Assim, ele estava em um estado sobrenatural, e, se ele não tivesse pecado, ano após ano ele teria avançado em mérito, graça, e no favor de Deus, até que passasse do paraíso terreno ao céu. Mas ele caiu, e seus descendentes nasceram conforme a sua semelhança; e o mundo ficou pior ao invés de melhor, e juízo após juízo em vão eliminou gerações de pecadores. “Porque o homem é carne”, e “era continuamente mau todo o desígnio de seu coração” (Gn 6,5).

Contudo, um remédio havia sido determinado no céu; um Redentor estava pronto; Deus estava prestes a fazer uma grande obra, e Ele propôs fazer isso adequadamente: “onde abundou o pecado superabundou a Graça” (Rm 5,20). Os reis da terra, quando nascem-lhes filhos, imediatamente dispersam grandes riquezas, levantam algum grande memorial; eles honram o dia, o lugar ou os arautos do evento auspicioso com alguma marca correspondente de favor; assim, nem a vinda do Emanuel inovou o costume mundial estabelecido. Foi um tempo de graça e prodígios, e estes foram exibidos de maneira especial na pessoa de Sua Mãe. O curso das eras foi revertido, a tradição do mal foi quebrada; um portão de luz foi aberto em meio as trevas, pela vinda do Justo; – um Virgem concebeu e O pariu. Foi apropriado, para Sua honra e glória, que ela, aquela que foi o instrumento de Sua presença corporal, fosse primeiro um milagre de Sua graça; era apropriado que ela triunfasse onde Eva falhou e que “esmagasse a cabeça da serpente” (Gn 3,15) por meio de sua santidade imaculada. Em alguns aspectos, na realidade, a maldição não foi revertida; Maria veio a um mundo caído, e conformou-se a suas leis; ela, assim como o Filho que ela pariu, foram expostos à dor da alma e do corpo, ela estava sujeita a morte; mas ela não foi posta debaixo do poder do pecado. Assim como a graça foi infusa em Adão desde o primeiro momento de sua criação, de maneira que ele nunca havia tido experiência de sua pobreza natural até que o pecado o reduziu a isso; assim a graça foi dada a Maria desde o primeiro momento e em medida maior, e ela nunca incorreu, de fato, na privação de Adão. Ela começou onde os outros terminavam, seja no conhecimento ou no amor. Ela foi desde o primeiro instante vestida em santidade, destinada à perseverança, luminosa e gloriosa aos olhos de Deus, e incessantemente engajada em atos meritórios, que continuaram até seu último suspiro. Dela foi, enfaticamente, “a senda dos justos [que] brilha como a aurora, e vai alumiando até que se faça o dia [perfeito]” (Pv 4,18); e a falta de pecado no pensar, no falar, no fazer, nas pequenas e também nas grandes coisas, em matéria venial e também na grave, é certamente a sequência natural e óbvia de uma começo assim. Se Adão podia ter guardado a si mesmo do pecado em seu primeiro estado, muito mais podemos esperar da perfeição imaculada em Maria.

Tais são suas prerrogativas de imaculada perfeição, e é dessa maneira, assim como sua maternidade, por causa do Emanuel; por isso ela respondeu à saudação do anjo, Gratia plena, com o reconhecimento humilde, ecce ancilla Domini –  “eis a serva do Senhor”. E em conformidade com isto está sua terceira prerrogativa que deriva tanto de sua maternidade como de sua pureza, a qual eu irei me referir como completando a enumeração de suas glórias. Refiro-me a seu poder intercessor. Pois, se “sabemos que Deus não ouve a pecadores; mas, se alguém é religioso e faz a sua vontade, a este ele escuta” (Jo 9,31); se “a oração fervorosa do justo tem grande poder” (Tg 5,16); se ao piedoso Abraão foi requerido que orasse por Abimeleque – “ele é um profeta” (Gn 9,20); se o paciente Jó teve de “orar por seus amigos”, pois ele havia “dito coisas justas diante de Deus” (Jo 42,8) se o manso Moisés, ao levantar suas mãos, fez com que a batalha se voltasse a favor de Israel contra Amaleque; porque nós deveríamos ficar espantados ao ouvir que Maria, a única filha imaculada da descendência de Adão, possua uma influência transcendente junto ao Deus da graça? E se os gentios em Jerusalém buscaram a Felipe, porque ele era um Apóstolo, quando eles desejavam chegar a Jesus, e Felipe falou a André, que era ainda mais íntimo da confiança de Nosso Senhor, e então ambos foram a Ele, seria estranho que a Mãe possuísse poder junto ao Filho, distinto quanto à natureza daquele poder que possui o mais puro anjo e o santo mais glorioso? Se temos fé para admitir a própria Encarnação, devemos admiti-la por completo; por que, então, não deveríamos começar pelas consequências graciosas que surgem a partir dela, ou são necessárias a ela, ou inclusas nela? Se o Criador veio à terra na forma de servo e criatura, por que Sua mãe, por outro lado, não poderia, ser elevada para ser a Rainha do Céu, vestida com o sol, e ter a Lua sob seus pés?

Não estou provando estas doutrinas para vocês, meus irmãos; a evidência delas repousa sobre a declaração da Igreja. A Igreja é o oráculo da fé religiosa, e distribui o que os apóstolos dispensaram a ela em todos os tempos e lugares. Devemos tomar sua palavra, então, sem ter a necessidade de provar, pois ela foi enviada a nós por Deus para nos ensinar da maneira que O agrada; e o que fazemos é o teste se somos católicos ou não. Não estou então provando aquilo que vocês já receberam, mas estou mostrando a vocês a beleza e a harmonia, de um de muitos casos, daquilo que é o ensino da Igreja; que são tão bem adaptados, da mesma forma que são divinamente intencionados, com a finalidade de serem ensinados àquele que questiona e para, com carinho, serem ensinados a seus filhos. Mais uma palavra e terei terminado; tenho mostrado a vocês o quão plenas de significado são as próprias verdades que a Igreja ensina a respeito da Santíssima Virgem, e agora considerem da mesma forma como tem sido plena a dispensação dessas verdades pela Igreja.

Assim sois vós, Santa Mãe, no credo e na adoração da Igreja, a defesa de muitas verdades, a graça e a luz sorridente de toda a devoção. Em ti, Ó Maria, é cumprido, como podemos testificar, o propósito original do Altíssimo. Uma vez Ele pretendera vir à terra com glória celestial, mas nós pecamos; então Ele não podia visitar-nos seguramente, exceto com um brilho velado e uma Majestade encoberta, pois Ele era Deus. Então Ele próprio veio em fraqueza, não em poder; e Ele te enviou, uma criatura, em Seu lugar, com a beleza e o brilho adequados ao nosso estado. E agora a tua própria face e forma, Mãe querida, fala a nós sobre o Eterno; não com a beleza terrena, perigosa de se olhar, mas como a estrela da manhã, que é o teu emblema, brilhante e musical, respirando pureza, falando sobre o céu e infundindo paz. Ó precursora do dia! Ó esperança dos peregrinos! Leva-nos ainda como tens levado, na noite escura, através dos ermos sombrios, guia-nos para Nosso Senhor Jesus, guia-nos para casa.

Maria, mater gratiae,
Dulcis parens clementiae,
Tu nos ab hoste protege
Et mortis hora suscipe.

Notas:

  1. O dogma da Imaculada Conceição foi proclamado ainda durante a vida de Newman.
  2. “Maria, mãe da Graça, Doce mãe clemente, Tu nos proteges dos inimigos, e amparas na hora da morte.”

Título original: The Glories of Mary for the sake of Her Son
Publicação original: Newman Reader
Citações bíblicas: Bíblia de Jerusalém
Tradução: Bryan M. dos Santos
Revisão: Davi Leite de Resende

São John Henry Cardeal Newman

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