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A ovelha desgarrada e o resgate do Bom Pastor

 

Nasci num lar Batista, meu pai havia sido batizado na Igreja Católica quando criança e meus avós não eram praticantes da religião e meu pai jamais  recebeu sequer a Primeira Eucaristia. Certo dia, já rapaz, meu pai conheceu uma igreja evangélica e passou a se considerar “cristão”, abominando todas as “práticas pagãs” de seus pais. Minha mãe teve uma história parecida, foi batizada, a família tinha um histórico de sincretismo religioso até que uma tia abandonou o que considerava ser o catolicismo para ser esposa de um  pastor: a família inteira foi sendo influenciando e boa parte hoje é evangélica e se consideram “ex-católicos”, mesmo não tendo nenhuma prática concreta da fé.

Os dois se conheceram em grupos de jovens e se casaram. Meus pais era evangélicos, meus tios e tias também, meus primos seguiam a religião dos pais, assim como eu. Meus amigos eram o “pessoal da igreja”, toda minha referência religiosa estava no Protestantismo, que eu considerava ter sido o resgate do verdadeiro Cristianismo que fora deturpados pela Igreja Católica.

Na adolescência me veio a rebeldia que é própria da fase e comecei a questionar pontos da fé que havia recebido. Lembro-me de na escola ter conhecido um adventista e uma testemunha de Jeová, ouvia as discussões que eles tinham e comecei a perceber as imensas diferenças que haviam dentro do próprio Protestantismo, então decidi começar a estudar as Escrituras para me aproximar cada vez mais do ensino bíblico.

Conhecendo mais as Escrituras queria procurar uma igreja que fosse mais “bíblica” porque percebia o desequilíbrio que havia na comunidade em que me encontrava. De domingo a domingo ia a denominações diferentes: presbiteriana, luterana, metodista, pentecostal, neopentecostal, conheci todo tipo de denominação protestante, até mesmo as que eu costumava detestar, a única coisa que jamais me passava pela cabeça era cogitar a Igreja Católica, de todas a mais deturpada, anti-bíblica e distante do Cristianismo primitivo, pelo menos de acordo com o que eu pensava.

Um pouco mais cética com relação a Cristo por conta da confusão doutrinária do que eu considerava ser sua “igreja espiritual” dentro de todas as igrejas comecei a estudar o Cristianismo mais para poder refutá-lo, gostaria de me ver livre do "peso" dos mandamentos e poder viver minha vida longe do que eu já começava a considerar superstições e bobagens. Entretanto, Cristo sempre me perseguia, como se não fosse capaz de me deixar em paz. Assim com o Bom Pastor, ele ia ao meu encontro, a ovelha perdida, sentia que Ele me procurava e quando estava perto de encontrá-lo, eu me escondia. Foi nessa fase que conheci os Padres da Igreja, achei que houvesse esperança para ser cristã.

Ignorando as “bobagens dogmáticas” que eu acreditava ter sido inventadas pelas igrejas comecei a procurar conhecer o Cristianismo Primitivo. Qual não foi a minha surpresa ao perceber que aqueles homens haviam conhecido e sido discípulos dos apóstolos (os quais admirava) criam em tudo que considerava como bobagem pagã: descobri a beleza da Eucaristia, as raízes antigas da oração dos santos e pelas almas do purgatórios, e a devoção sempre praticada pela Santíssima Virgem. Essas constatações me perturbavam, pois nunca quis me tornar católica. Continuei relutando…

Nessa época, passava por muitas dificuldades pessoais e emocionais, tinha noites terríveis e pavorosos pesadelos, costumava acordar com medo e orar, mas me sentia também abandonada por Deus (na verdade era eu quem o havia abandonado quando passei a querer viver segundo minhas próprias regras enquanto fugia do Bom Pastor). Olhando para trás vejo que foi uma espécie de correção usada pelo Pai para me trazer de volta, pois me sentia extremamente perturbada pelos meus próprios pecados, como se pudesse ver nas madrugadas o mal que eles faziam à minha alma.

Certa noite, acordei em pânico e já desistindo das orações por conta de minha teimosia em fugir de Deus – afinal, se o Cristianismo fosse verdadeiro ele seria Católico, e isso eu jamais poderia suportar – coloquei então minha playlist de músicas clássicas para ver se conseguia me acalmar. Por providência divina, a música que tocou no aleatório foi o instrumental da Ave Maria de Schubert, senti um grande impulso para buscar a proteção da Mãe de Jesus, cujo culto ainda considerava idólatra e desejei ardentemente rezar a oração da Ave Maria, apesar de sequer saber como rezá-la.

Passei alguns minutos relutante, brigando comigo mesma, até tomar coragem de pesquisar no Google a oração, rezei a primeira Ave Maria da minha vida. A partir daquele instante veio uma paz ao meu coração e não sofri mais as perturbações noturnas. Quando me deitei para dormir, senti uma felicidade genuína vinda do Céu, como disse o Mestre que se alegram os anjos por um pecador arrependido. Soube naquele instante que deveria aderir definitivamente à família de Cristo.

Procurei uma paróquia, comecei a frequentar as Missas e busquei acompanhamento do pároco. Tive uma longa caminhada até receber os sacramentos, foi também um longo embate dentro da família. Minha história de conversão começou no ano de 2015 quando comprei minha primeira Bíblia católica e comecei a fuçar a história da Igreja que ainda detestava, mas veio a ser concluída em 2018, quando comecei a frequentar e buscar os sacramentos. Muitos anos ainda virão e continuo me entregando às mãos de Nossa Senhora para que jamais volte a me apartar do aprisco do Bom Pastor.

Gabriela Barros

Gabriela Barros

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