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A Intercessão dos Santos no Céu em Nosso Favor

28/10/2019 , por Dave Armstrong

Apocalipse 5,8 (BJ): Ao receber o livro, os quatro Seres vivos e os vinte e quatro Anciãos prostraram- se diante do Cordeiro, cada um com uma cítara e taças de ouro cheias de incenso,

que são as orações dos santos.

Apocalipse 6, 9-10: Depois disso, eis que vi uma grande multidão, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas. Estavam de pé diante do trono e diante do Cordeiro, trajados com vestes brancas e com palmas na mão. E, em alta voz, proclamavam: “A salvação pertence ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro!”

Apocalipse 8,3-4: Outro Anjo veio postar-se junto ao altar, com um turíbulo de ouro. Deram-lhe uma grande quantidade de incenso para que o oferecesse com as orações de todos os  santos, sobre o altar de ouro que está diante do trono. E, da mão do Anjo, a fumaça do incenso com as orações dos santos subiu diante de Deus.

Mateus 17,1-3: Seis dias depois, Jesus tomou Pedro, Tiago e seu irmão João, e os levou para um lugar à parte, sobre uma alta montanha. E ali foi transfigurado diante deles. O seu rosto resplandeceu como o sol e as suas vestes tornaram-se alvas como a luz. E eis que lhes apareceram Moisés e Elias conversando com ele.

Mateus 27,52-53: Abriram-se os túmulos e muitos corpos dos santos falecidos ressuscitaram. E, saindo dos túmulos após a ressurreição de Jesus, entraram na Cidade Santa e foram vistos por muitos.

Católicos acreditam que os santos e os anjos no céu podem rezar em nosso favor e ouvir nossos pedidos de intercessão tal como as pessoas da terra também podem. Na verdade, estando tão próximas da presença de Deus no paraíso, as orações deles são mais poderosas que as nossas. Entretanto, a maioria dos Protestantes Evangélicos negaria o poder da intercessão dos santos para declarar que qualquer menção de pedir algo a eles seria vã na melhor das hipóteses e, na pior delas, idolátrica – por colocar mediadores supérfluos e adicionais entre Deus e a humanidade.

Existe, novamente, alguma concordância com a posição Católica entre os fundadores do Protestantismo. Martinho Lutero, nos seus Artigos de Esmalcalda de 1537, reconheceu que os santos no céu “talvez” orem por aqueles na terra, embora ele negue que eles possam ser invocados ou ter sua intercessão solicitada:

“Embora anjos no céu orem por nós (como o próprio Cristo também faz), e embora santos da terra, e talvez os do céu, procedam da mesma forma, não segue que devemos invocar anjos e santos.” (Parte II, Artigo II, in Tappert, 297)

João Calvino assume uma visão similar:

“Eles novamente objetam, serão aqueles, então, privados de todo desejo piedoso, que, durante todo o curso de suas vidas, não respiraram nada além de piedade e misericórdia?… Não pode haver dúvida que a caridade deles está limitada à comunhão do corpo de Cristo, e se estende não mais do que o compatível com a natureza daquela união. Muito embora eu admita que desta maneira orem por nós, eles não perdem sua quietude para se distrair com os interesses terrenos: muito menos devem, portanto, ser invocados por nós.” (Institutes, III, 20,24, ênfase adicionada).

Mas Calvino continua na mesma seção, falando muito mais como os Protestantes atuais:

“Mas todas essas razões são inaplicáveis aos mortos, com quem o Senhor, retirando-os da nossa sociedade, não nos deixou nenhum meio de comunicação (Ec. 9, 5-6), e para quem, até onde podemos conjecturar, não deixou nenhuma possibilidade de conexão conosco.”

A evidência Bíblica contrária foi discutida na seção anterior. Quanto aos mortos serem “retirados” dos interesses terrenos, eu perguntaria a Calvino se ele estivesse aqui hoje: “Porque, então, há tantos exemplos de mortos em Cristo tendo contato com os vivos, com o total consentimento de Deus?”

Alguns exemplos disso são a aparição de Moisés e Elias a Jesus no Monte da Transfiguração (Mt 17,1-3), as “duas testemunhas” de Apocalipse 11,3, as quais muitos comentaristas acreditam também ser Moisés e Elias; a aparição de Samuel a Saul, profetizando sua morte iminente (1 Sm 28,12-15; comentaristas são quase unânimes em afirmar que aqui era de fato Samuel); e os muitos santos que levantaram dos mortos e apareceram a muitos em Jerusalém após a morte de Jesus (Mt 27, 52-53).

Calvino contradiz a si mesmo, entretanto, logo após ele ter admitido que santos no céu oram por nós:
“Os mortos, dos quais nós em nenhum lugar lemos que eles tem a tarefa de orar por nós. A Escritura com frequência nos exorta a oferecer mútuas orações, mas não diz uma sílaba no que concerne aos mortos… Enquanto a Escritura abunda em várias formas de oração, nós não vemos nenhum exemplo desta intercessão”. (Institutes, III, 20,27; ênfase adicionada).

Em outro momento, ele diz categoricamente:

“Do purgatório, da intercessão dos santos…sequer uma sílaba pode ser encontrada na Escritura” (Institutes, IV, 9,14).

É raramente sábio fazer afirmações negativas tão radicais, porque apenas um contraexemplo pode transformá-las numa tolice. A contraprova das três afirmações de Calvino reside nas três passagens do Apocalipse citadas nesta seção. Calvino tenta um outro tipo de refutação dizendo que afirmar que os santos intercedem por nós é confundir os homens e os anjos na ordem do Ser:

“Nós frequentemente lemos (eles dizem) sobre as orações dos anjos, e não só isso, mas também que as orações dos crentes são ditas serem carregadas na presença de Deus até as mãos dele… O quão absurdamente eles confundem os santos que partiram com os anjos é suficientemente perceptível a partir dos muitos atributos diferentes pelos quais as escrituras distinguem um do outro.” (Institutes, III, 20,23)

Isto é uma lógica frívola. Tudo o que deve ser demonstrado como um atributo comum é a capacidade de interceder. Santos falecidos não necessitam ter todas as características angélicas para fazer isto. O raciocínio de Calvino é tão absurdo quando a seguinte analogia:

1. Um grande intelecto como o de Einstein contém o conhecimento de que 2 + 2 = 4

2. Uma criança de 6 anos também sabe que 2 + 2 = 4

3. Mas, para uma criança saber isso, ela deve ter todo o intelecto de Einstein.

4. Logo, a criança não pode saber que 2 + 2 = 4 porque ela não tem todo o intelecto de Einstein.

A premissa falsa obviamente repousa sobre a proposição número 3. Da mesma maneira, a premissa falsa de Calvino é a sua suposição implícita de que santos deveriam compartilhar de todos os atributos dos anjos para somente então poderem interceder. Deixando de lado esta lógica imperfeita, a Escritura claramente contradiz a asserção, pois Apocalipse 8,3-4 descreve um anjo apresentando as orações de santos a Deus, e Apocalipse 5,8 atribui a seres humanos a mesma função.

Como Calvino interpreta estas passagens? É difícil determinar, porque ele não as comentou no “Institutes” (exceto por uma referência velada e ambígua abaixo), e não escreveu comentários sobre o Apocalipse. Então, teremos que examinar como outros protestantes lidaram com esta informação bíblica fascinante. Metodistas como Adam Clarke e John Wesley nos seus comentários simplesmente tomam as orações apresentadas em 5,8 como figurativas. Clarke faz uma afirmação bastante curiosa sobre Apocalipse 8,3-4:

“Não é dito que o anjo apresenta estas orações. Ele apresenta o incenso, e as orações ascendem com ele.

Mas o incenso é a oração dos santos em Apocalipse 5,8, tornando a controvérsia de Clarke pouco plausível. Jamieson, Fausset e Brown fazem alguma eisegese própria ao comentar Ap 8, 3-4 (letras maiúsculas no original):

“O quão precisamente seu ministério, perfumando as orações dos santos e as oferecendo no altar do incenso, é exercitado, nós não sabemos, mas nós sabemos que não devemos orar PARA eles… Não são os santos quem dão ao anjo o incenso; e também não são as orações identificadas com o incenso; e nem os santos oferecem orações a ele. Somente Cristo é o mediador através do qual, e ao qual, a oração deve ser oferecida”.

Como, de fato, nós sabemos que os anjos não são convidados a interceder? Pois o mais lógico é pensar que eles só estariam oferecendo as orações dos santos se fossem solicitados para tal – do contrário, estas orações não seriam entregues a eles, de certa maneira, para que fossem oferecidas.

Por último, o fato de que Cristo é o único mediador não é questionado por ninguém. Pedir a um santo no céu que reze por nós interfere tanto na única mediação de Cristo quanto pedir a alguém na terra que ore por nós. Nós sempre rezamos em Cristo, pelo Seu poder, e para Ele, seja a oração direcionada a Ele, ou por meio de outra pessoa ou anjo, no céu ou na terra.

A (falsa) dicotomia entre a mediação de Cristo e a mediação humana ou angélica não precisa ser desenhada; surge apenas por causa do alarmismo desnecessário do protestante em Deus fazer uso de criaturas para cumprir seus propósitos. O comentário de Jamieson, Fausset e Brown sobre Apocalipse 5,8 exibe ainda mais um tipo de “mentalidade de fortaleza”:

“Isso não dá a menor sanção ao dogma romano sobre nossa oração aos santos. Embora eles possam ser empregados por Deus de alguma maneira desconhecida para nós para apresentar nossas orações (nada é dito sobre a intercessão deles por nós), mesmo assim nós somos chamados a orar somente para Ele (Ap 19,10; 22,8-9).

Não somos informados na Escritura que não podemos pedir a alguém no céu para orar por nós. Santos no céu estão mais vivos e lúcidos e muito mais perfeitos do que estamos. Eles nos vêem (Hb 12,1). Eles têm ciência dos acontecimentos terrenos (Ap 6,9-10). Eles podem certamente receber capacidades extraordinárias de conhecimento por meio de Deus; não há nada implausível ou intrinsicamente impossível ou antibíblico nesta noção em absoluto.

São Paulo fala sobre o além-vida no céu:

1 Cor 13,12: Agora, pois, vemos apenas um reflexo obscuro, como em espelho; mas,  então, veremos face a face. Agora conheço em parte; então, conhecerei plenamente, da mesma forma como sou plenamente conhecido.

Portanto, eles podem orar por nós e nós podemos pedir a oração deles. Nós sabemos que eles podem voltar à terra (pelos quatro exemplos supracitados mais cedo). Devemos acreditar que tais santos, quando vêm à terra, podem rezar, mas imediatamente após retornar ao céu eles não o podem mais? E se eles podem apresentar nossas orações, porque seria tão inconcebível que eles também intercedessem por nós?

Albert Barnes neste comentário sobre as passagens de Apocalipse 5,8 e 8,3 delineia algumas distinções complicadas que causariam inveja ao mais hábil dos advogados:

“A representação aqui (Ap 8,3) sem qualquer sombra de dúvida é que o anjo está encarregado de apresentar as orações dos santos que foram oferecidas na terra perante o trono. É mais natural interpretar a passagem diante de nós (Ap 5,8) no mesmo sentido… Não é dito que eles ofereçam eles mesmos a oração, mas que eles oferecem incenso como representação das orações dos santos”.

Muito mais sensato e plausível é uma parte do seu comentário sobre Ap 6,9-10:

As almas dos que foram mortos. Isto seria os que foram martirizados pela perseguição. Esta é uma das provas incidentais na Bíblia de que a alma não cessa de existir após a morte, e também que não cessa de estar consciente, ou de que não fica dormindo até a ressurreição. Estas almas dos mártires são representadas como ainda em existência, com lembranças do que aconteceu na terra, interessadas nas atualizações dos acontecimentos, engajadas em oração e manifestando desejos sinceros para a interposição de Deus para vingar os males que os fizeram sofrer.

Mas então, o viés Protestante de Barnes o domina novamente:

“Não devemos supor que os feridos e injustiçados no céu rezem realmente por vingança contra aquelas que os imolaram, ou que os redimidos no céu continuarão a orar com referência às coisas na terra; mas seria justo inferir disto que haverá uma lembrança tão real dos erros dos perseguidos, dos feridos e dos oprimidos, como se tal oração fosse oferecida lá.”

Peter Berger, um eminente sociologista Luterano, discute com grande lucidez a diferença entre o Protestantismo e o Catolicismo no que tange à Comunhão dos Santos:

“Se comparado com a “totalidade” do universo Católico, o Protestantismo parece como um truncamento radical, uma redução a coisas “essenciais” em detrimento de uma vasta riqueza de conteúdos religiosos… o Protestantismo pode ser descrito em termos de um imenso encolhimento no escopo da realidade sagrada, se comparado com o seu adversário Católico. A imensa rede de comunicação da intercessão que une o Católico no seu mundo com os santos e, na verdade, com todas as almas que partiram, desaparecem. O Protestantismo parou de orar pelos mortos.

O Católico vive num mundo no qual o sagrado é mediado para ele através de uma variedade de canais – os sacramentos da Igreja, a intercessão dos santos, a recorrente erupção do “sobrenatural” em milagres – uma vasta continuidade de estar entre o visível e o invisível. O Protestantismo aboliu a maioria destas mediações. Ele quebrou a continuidade, cortou o cordão umbilical entre a terra e o céu. “ (Berger, 111-112).

Os Protestantes são muito relutantes em falar sobre estes santos que partiram, com a justificativa de que isso de alguma maneira os daria alguma condição “divina” ou depreciaria a exímia glória e majestade Divinas; ou talvez que isso os iria conduzir perigosamente à necromancia. Como vimos, isto vai contra às muitas indicações bíblicas expostas.

Por isso, como em muitos outros assuntos, eu acredito que a atitude cética ou a negativa secreta está enraizada num medo ou suspeição de que agir de maneiras “Católicas” seria ceder terreno aos Católicos e começar a escorregar numa ladeira íngreme que os levaria inevitavelmente a Roma. É uma “mentalidade de fortaleza” defensiva. Mas eu diria que todos os Cristãos devem ceder aos exemplos e ordenanças bíblicas, sem se importar se o assunto em questão parece mais “Protestante” ou mais “Católico”.

Os Católicos que se aventuram nas arenas da apologética e compartilham a sua fé com os Protestantes vão encontrar esta atitude seguidamente, e devem estar atentos a como respondê-la com argumentação bíblica sólida e lógica simples. Como Peter Berger notou acima, o Protestantismo é caracterizado por “um imenso encolhimento no escopo do sagrado na realidade”.

O mistério, o milagre, o sacramental, e outros elementos similares são minimizados em muitos setores do Protestantismo. Há uma ênfase esmagadora na relação individual com Deus, e na “Palavra” (interpretada como sendo “Somente a Bíblia”). Isto simplesmente não está de acordo com a Bíblia e com o Cristianismo Histórico. Portanto, Católicos que querem defender estas crenças precisam mostrar que elas estão fundamentadas na Bíblia, e não em arbitrárias “tradições (católicas) de homens.”

Artigo original (com as fontes bibliográficas): https://www.patheos.com/blogs/davearmstrong/2019/10/intercession-of-the-saints-in-heaven-on-our-behalf.html

Tradução: Túlio Christofoletti

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