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O mar vermelho da Igreja

O protestante deve admitir que, se tal sistema de doutrina que ele agora apresenta tiver existido nos tempos antigos, ele foi completamente varrido como que por um dilúvio, de modo súbito, e sem deixar rastros; um dilúvio que terá chegado em uma noite e tudo encharcado e apodrecido, levando embora rapidamente qualquer vestígio do que encontrou na Igreja antes do cantar do galo: de modo que ‘quando eles se levantaram pela manhã’, sua verdadeira semente eram apenas cadáveres’. [Is 36,37] Não cadáveres enterrados, mas sem túmulo. ‘As águas os cobriram; não restou um só deles, afundaram como pedras nas águas poderosas’. Estranho antítipo, de fato, para os primeiros sucessos de Israel! Então, o inimigo se afogou, e ‘Israel os viu mortos nas praias’. [Ex 15,5; 14,30] Mas, ao que parece, a água jorrou, como uma inundação, ‘da boca da serpente’ [Ap 12,15], e cobriu todas as testemunhas, de modo que nem mesmos seus cadáveres ‘jazem nas ruas da grande cidade’. Que o protestante escolha, entre as suas doutrinas, a que quiser […]. Ele terá de admitir que o suposto dilúvio fez bem o seu trabalho; e que, por sua vez, desapareceu, engolido pela terra, sem piedade, do mesmo modo como ele próprio foi impiedoso.” 

+ São João Newman – “A Igreja dos Padres; retirado de “Um ensaio sobre o desenvolvimento da doutrina cristã”, ed. Cultor de Livros, pág. 33)

Existe um problema de resolução quase impossível no Protestantismo: classificá-lo. Cada grupo (e até cada indivíduo) terá uma certa definição do que é ser “protestante”, “reformado”, “evangélico” ou o que seja. Há poucos pontos que os unem, e não são muitos os que são completamente universais. Dentre esses, estão o cânon de 66 livros, as Cinco Solas (em diferentes proporções, talvez), e especialmente, uma convicção de que a Igreja Católica (ou mais especificamente, a Igreja de Roma) se desviou do Evangelho como expresso nos tempos antigos do Cristianismo.

O próprio Newman, num dos primeiros números do Tracts for the Times, se expressou dizendo que deveríamos resistir à comunhão com Roma “pelas palavras da Verdade, que nos levam a preferi-la ao mundo inteiro”, pelo anátema de Paulo contra quem pregasse outro Evangelho, e pelas palavras de Moisés contra mestres (mesmo que fossem divinamente inspirados) que pregassem deuses estranhos. Não parece uma linguagem muito diferente do que vemos nos nossos tempos: os mais radicais a chamam de “a grande prostituta” ou “a grande Babilônia”; Lutero falava de um “cativeiro babilônico da Igreja”; a Confissão de Westminster afirma que o poder papal é um tipo do Anticristo (XXV, VI). Quanto dista o Oriente do Ocidente (Salmo 103,12), assim é a força desta convicção: “Estamos aqui reunidos para fazer justiça! A ICAR se desviou do verdadeiro Evangelho, e isso precisa ser divulgado!” (O Julgamento da Igreja, Victor Garcia)

A caricatura expressa pelo texto do Victor é o fator que Newman aponta na citação que inicia este texto: todo protestante — seja o batista que crê no batismo apenas de adultos, seja o presbiteriano que não crê no uso das imagens (ou que professa doutrinas peculiares sobre a predestinação), seja o luterano que crê na justificação somente pela fé, seja o adventista que crê na guarda do sábado, ou qualquer outro — para justificar a sua tese, precisa necessariamente acreditar que esse sistema foi professado nos primeiros tempos da Igreja, mas sumiu por completo e não deixou um rastro sólido — como cadáveres sem túmulo.

O problema, para nós católicos, é que se isso for verdade, as bases do próprio Cristianismo estão abaladas. Não se trata de dizer “eu acredito que a Igreja está errada”, mas sim “eu rejeito todo o Cristianismo até certo ponto da História”, ou “eu rejeito esta parte da história do Cristianismo” — como aponta o autor Joe Heschmeyer em um artigo sobre a Eucaristia. Sempre chamamos atenção às promessas de Cristo de que “as portas do Inferno jamais prevalecerão contra a Igreja”, ou que “Ele estará conosco pelos séculos dos séculos”, como expressa o Evangelho de São Mateus. E isso se deve ao fato de que, se houve um “grande dilúvio”, a nossa fé no Cristianismo não pode ser tão grande assim.

Ao longo da Bíblia, vemos que… bem, as coisas saíram do controle, e os seres humanos pecaram demais. Veio o Dilúvio, a escravidão dos israelitas no Egito que foram seguidas de quarenta anos no Deserto, o intrincado período dos Juízes, o cisma político-religioso dos reinos de Israel e Judá, o Exílio destes e, por fim, a vinda do Messias, do Libertador, daquele que era esperado desde que fora anunciado que a cabeça da serpente seria esmagada (Gn 3,15). 

Não só isso, mas há uma tendência no Antigo Testamento de crer que algo definitivo está por vir. O proto-evangelho de Gênesis já nos passa essa ideia; o arco-íris selou com Noé uma promessa de que nunca mais haveria uma destruição massiva dos seres humanos pela água (Gn 9,13); Moisés anunciou a vinda de um profeta como ele (Dt 18,18); a Davi, foi prometido um descendente eterno no Seu trono (2Sm 7,12); as profecias messiânicas falam de uma Lei escrita nos corações dos homens (Ez 36,26). 

E por fim – no texto que foi a Primeira Leitura da liturgia de ontem, o Novo Testamento confirma isso na Carta aos Hebreus:  “muitas vezes e de diversos modos outrora falou Deus aos nossos pais pelos profetas. Ultimamente nos falou por seu Filho, que constituiu herdeiro universal, pelo qual criou todas as coisas.” Ou seja, já temos toda a Revelação, e não precisamos esperar mais que a consumação de tudo, a Segunda Vinda de Cristo e o Fim dos Tempos, a Parusia e o Escaton. 

Seria uma ideia estranha pensar que a religião definitiva, a plenitude da fé e da Revelação, a Lei gravada nas tábuas da carne humana, a Igreja fundada sobre a Rocha (e não sobre a areia) seria desmantelada de uma forma tão brutal. Alguns poderiam dizer que o marco deste evento foi a morte do último Apóstolo. Outros, a intromissão de Constantino e do poder imperial; ou até mesmo, o Concílio de Niceia. Também há a ideia de que a Idade Média, ou o fim do Primeiro Milênio, seria o marco do início deste dilúvio. Isso teria durado até a Reforma Protestante, a Grande Restauração do Cristianismo primitivo, puro, sem mácula e sem defeito.

Os protestantes apelam a uma pureza da antiguidade. Nós católicos – e Newman explica isso muito bem no “Desenvolvimento” – interpretamos o antigo pelo atual. A Igreja, no seu molde atual, explica a antiguidade. Como isso é possível? Simples: do mesmo modo que o Novo Testamento – mais claro e desenvolvido – interpreta o Antigo. O problema dos hereges é justamente esse: apelar à antiguidade para justificar teses errôneas. 

Ário e seus partidários poderiam apelar aos Padres pré-nicenos, mas todos os cristãos nicenos (inclusive os protestantes) concordam que a explicação “tardia” do período pós-Concílio é a explicação correta e adequada daqueles textos, e também da Escritura. Alguns judaizantes hoje tentam fazer valer a ideia de que “o Antigo interpreta o Novo”, no sentido de que as leis judaicas, como a circuncisão, ainda são necessárias para os cristãos. Lutero julgava que Roma introduziu um sistema supersticioso, e os calvinistas acreditam que a Igreja Católica abandonou o Evangelho – o que foi ratificado no Concílio de Trento – ao abandonar as doutrinas monergistas, supostamente encontradas em Padres da Igreja. E até mesmo, existem certos católicos divulgando a ideia de que uma Grande Apostasia, um grande dilúvio que está diluindo a ortodoxia da fé católica, está ocorrendo desde o século passado. 

Se isso é um obstáculo à comunhão com Roma, pretendemos demonstrar que ele é destituído de fundamento sólido, como fez Newman na sua obra. A Igreja não foi afogada no Mar Vermelho da história. E existem cinco pontos que podem demonstrar isso: os conceitos de Tradição (enquanto interpretação legítima da Bíblia) e Magistério, a Patrística, e os períodos históricos da Patrística, da Idade Média, e da própria Reforma Protestante. Que o nosso padroeiro, o Cardeal Newman, rogue por nós e nos conceda a graça de fazer uma boa defesa da fé pela qual, tal como ele, fizemos sacrifícios imensos para vivenciar.

Este texto foi pensado como continuação do tema desenvolvido no artigo “Pentecostes continua”, postado neste blog no último ano. Você pode ler ele clicando aqui.

— Symon Bezerra (Methodios Project), 12 de janeiro de 2021

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